Análise das personagens traidoras em Felizmente há Luar de Sttau Monteiro
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 15.01.2026 às 15:20
Tipo de tarefa: Análise
Adicionado: 15.01.2026 às 14:33

Resumo:
Análise dos traidores em *Felizmente há Luar!* destaca hipocrisia, medos e ambições que perpetuam a opressão, criticando a passividade social.
Introdução
“Felizmente há Luar!” é uma das mais icónicas peças do teatro português do século XX, escrita por Luís de Sttau Monteiro, e não por Almeida Garrett ou Luís de Camões, como tantas vezes se confunde. Estreada em 1961, mas censurada em plena ditadura do Estado Novo, a peça transporta-nos para o início do século XIX, durante o período das Guerras Liberais, dominado pela repressão absolutista de D. Miguel e pelo célebre episódio da condenação do General Gomes Freire de Andrade. A dramatização das tensões políticas e sociais dessa época concretiza-se através de personagens fortemente simbolizadas, cuja análise é crucial para compreender não só os mecanismos do poder autoritário, como também as diferentes posturas humanas perante a opressão.Neste ensaio iremos focar a análise nas personagens conhecidas como “Os Traidores”. Para além da sua importância decisiva no desenvolvimento da ação – são eles os agentes da denúncia e responsáveis pela prisão dos conspiradores – representam diversas faces da traição: a cobardia, o desejo de ascensão social, o materialismo e a hipocrisia. Explorar o modo como estes personagens são construídos, quais as suas motivações, relações e linguagens, e como funcionam simbolicamente na encenação do conflito político-social, permitirá perceber a dimensão profunda da crítica do autor à sociedade portuguesa de então (e também de hoje). Nesse sentido, o estudo destas figuras revelar-se-á decisivo para compreender não só a narrativa, mas todo o projeto crítico subjacente a *Felizmente há Luar!*.
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Desenvolvimento
I. Definição e papel dos traidores na peça
Na estrutura dramática da peça, os “traidores” assumem estatuto de antagonistas centrais. Ao contrário de um “vilão” clássico, não são exclusivos representantes do mal absoluto, mas figuras que se infiltram no tecido social, adotando atitudes hostis, por vezes subtilmente mascaradas por discursos de suposta responsabilidade ou patriotismo. Em termos funcionais, estes personagens operam como dinamizadores do conflito central: são eles que garantem a perseguição ao general libertador, promovem a delação e denunciam, ajudando o poder opressor a esmagar os ideais progressistas de Gomes Freire. No fundo, representam, sob diferentes máscaras, o pequeno colaborador do grande sistema repressivo.Ao nível literário, evidenciam uma hipocrisia corrosiva, evidenciando tanto a sua falta de escrúpulos como a vaidade e autojustificação dos que traem, sempre convencidos da sua própria honorabilidade. Este aspeto reveste uma importância especial no contexto da produção romântica e no legado do teatro português: tal como o próprio Almeida Garrett já evidenciara em “Frei Luís de Sousa”, ou Branquinho da Fonseca em “Os Traidores”, a ambiguidade moral dos denunciadores revela-se um dispositivo crítico do inconformismo face ao statu quo.
Assim, estas personagens servem uma dupla função: promovem a progressão dramática e são veículo de crítica social e política, denunciando as engrenagens de compadrio e opressão na sociedade portuguesa.
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II. Caracterização individual das personagens traidoras
A. Vicente
Vicente é, provavelmente, a personagem traidora mais complexa e ambígua de *Felizmente há Luar!*. Proveniente do povo, ambiciona não apenas ascender socialmente, mas também conquistar algum protagonismo num mundo de castas rígidas, onde o mérito e a honra são valores distorcidos. Vicente destaca-se pela sua inteligência astuta, grande capacidade manipulativa e, acima de tudo, por um oportunismo evidente.O seu discurso é marcado por mudanças constantes de tom: ora é solidário com o povo e os conspiradores, ora revela o seu verdadeiro rosto traidor e interesseiro. Esta duplicidade é notória, por exemplo, quando defende perante Mónica e Matilde que apenas cumpre o seu dever, justificando a delação e o controle autoritário em nome de um alegado “bem maior”. A sua vontade de denegrir a figura do general é explícita, chegando a acusá-lo de corrupção e traição à pátria – recorrendo frequentemente ao sarcasmo e à ironia como formas de se distanciar de qualquer implicação moral.
Cénicamente, Vicente apresenta-se com fala rápida, gestos grandiloquentes, por vezes quase alucinados, como quem encena para si próprio um papel heroico. Esta teatralização da própria pessoa (“gestos de senador romano”) evidencia irreprimível arrogância e sede de reconhecimento. Em simultâneo, a sua ansiedade revela-lhe fragilidade: tanto teme ser acusado, como deseja a promoção e aprovação dos superiores. Muitas vezes é irónico, grotesco e até histriónico, encenando piedade quando convém, mas evidenciando sempre desprezo pelo povo de que era parte.
No tecido social retratado, Vicente é, no início, iludidamente tido pelo povo como aliado – o traidor nunca se apresenta como tal. Contudo, a verdade impõe-se e, à medida que os seus esquemas são expostos, a sua figura é repugnada e rejeitada. Já os governantes, embora desconfiados do seu passado e das suas intenções, utilizam-no a seu favor, valorizando-lhe a eficácia enquanto “cão de guarda” do sistema.
Vicente materializa assim a crítica dura à hipocrisia e à falsa solidariedade, às aspirações mesquinhas que tanto sabotam ideais coletivos. Representa o traidor “mediano”, aquele que, sem convicção, se vende ao poder. O autor, ao dar-lhe linguagem sarcástica e múltiplas máscaras, insinua a persistência destas figuras na realidade portuguesa.
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B. Andrade Corvo
Andrade Corvo distingue-se como um traidor “pragmático”, em que o materialismo é valor fundamental. Não guiado por qualquer ideologia, mas sim pela conveniência e pelo desejo de beneficiar financeiramente ou de modo pessoal com o regime vigente, o seu “patriotismo” é sempre ambíguo, oscilando entre discursos enfáticos e total ausência de sensibilidade coletiva.Este tipo de personagem está pouco preocupado com a própria imagem, demonstrando até um certo desprezo pela opinião alheia. Assume publicamente o papel de colaborador dos opressores, sendo visto pelo povo como verdadeiro “bufo” e desprezado pelas classes populares. Não obstante, os próprios superiores têm por ele escassa consideração; consideram-no útil, mas apenas enquanto cumpra o seu papel de informador.
O seu comportamento cénico é impaciente, dramático e, por vezes, teatralmente afetado. Não demonstra remorsos nem dúvidas existenciais; a sua traição aparente resulta de mero cálculo de vantagens. Isso vê-se, por exemplo, nos constantes apartes em que sublinha que “não há outro caminho” ou “é assim a vida”. Deste modo, torna-se símbolo da aceitação resignada do mal, reforçando a dimensão trágica da peça.
Se compararmos Andrade Corvo com Vicente, notamos diferenças subtis mas decisivas: Vicente finge solidariedade e oscila entre arrogância e servilidade, enquanto Corvo apenas se preocupa com o que pode ganhar; a sua frieza e desencanto representam a corrupção dos ideais e a morte da esperança.
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C. Morais Sarmento
Morais Sarmento, capitão de exército, simboliza o traidor movido pelo medo e pela mesquinhez. Vive preocupado com a possibilidade de ser percebido como traidor, o que lhe confere um traço grotesco e vulnerável. Age, como Andrade Corvo, de forma hipócrita e oportunista, desempenhando funções de vigilância não por convicção, mas por calculismo e temor.No plano cénico, Morais Sarmento apresenta-se nervoso, ansioso e, por vezes, titubeante nos seus discursos. Revela sarcasmo e hipocrisia, misturando a preocupação pela sua “reputação” com o desejo de agradar ao poder. Esta ansiedade traduz também uma consciência moral atrofiada: sabe que está a agir errado, mas a cobardia e o apego ao pouco poder que detém são mais fortes do que qualquer princípio.
No seio da sociedade, Morais Sarmento é objeto de desprezo tal como Andrade Corvo, visto ora como figura pouco confiável, ora como instrumento útil para controlar o povo. O autor utiliza-o para satirizar a fraqueza moral: não é por acaso que o soldado, tradicionalmente símbolo de honra, surge aqui como pequeno servidor submisso.
Morais Sarmento espelha aquilo que o autor quis criticar ferozmente: a mesquinhez e a hipocrisia dos que, por medo, compactuam com sistemas de opressão. Contrasta, assim, fortemente com o general Gomes Freire, cuja coragem é posta em contraponto nítido.
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D. Os Dois Polícias
Os polícias representam a face “banal” do poder absoluto: são os pequenos braços incarregados de executar ordens, figuras menores, ingénuas mas perigosas na sua obediência cega. Agem, na maior parte das vezes, com ironia barata e arrogância pueril, tentando assustar o povo e convencendo-se do seu próprio papel de destaque, embora saibam que a sua posição é precária e dependente do favor dos superiores.Cénicamente, os polícias exibem sarcasmo, esperança vã de promoção, e uma vaidade cómica. Muitas vezes mostram-se convencidos de que Vicente ou outros superiores se lembrarão deles nos momentos de glória, mas são, no fundo, apenas peões num “xadrez” de interesses que não controlam. O povo teme-os – não tanto pelo perigo real, mas pelo poder que simbolicamente representam.
A sua estrutura caricatural serve para ironizar a tirania quotidiana, aquela implementada por “medrosos com poder”. Contrapõem-se ao herói trágico mostrando que, quando o povo aceita ser dominado por figuras sem brilho, a opressão triunfa até aos níveis mais baixos.
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III. Relações entre as personagens e a trama
A interação dos traidores com o general, o povo e o poder absoluto tece um retrato denso do tecido social oitocentista português. Os traidores, cada um à sua maneira, operam em cumplicidade com D. Miguel, funcionando como ferramentas da repressão e condenação dos ideais liberais. O povo, ingénuo ou resignado, inicialmente não os reconhece como inimigos, sendo manipulado pelos seus discursos e atitudes dissimuladas.O general Gomes Freire surge como vítima direta destas figuras, pois a sua prisão e posterior execução resultam precisamente da ação traidora. Os seus algozes não são grandes figuras do mal, mas sim homens comuns, cegos pelo medo, ambição ou vaidade: é, aliás, esse o tom trágico da peça, como também sucede em “Maria Stuart” de Schiller ou “Os Filhos do Fogo” de Soeiro Pereira Gomes, onde a traição se revela tarefa dos próprios membros da comunidade.
Por outro lado, os traidores revelam-se frágeis: dependem do poder e temem-no. Exemplificam, assim, como a repressão se consolida não apenas por força dos tiranos, mas sobretudo pela colaboração e passividade dos pequenos agentes quotidianos.
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IV. Análise do espetáculo dramático e das indicações cénicas
A peça faz uso abundante de didascálias e indicações cénicas para aprofundar a psicologia das personagens traidoras. O texto propõe que Vicente trema de excitação, exiba sarcasmo ostensivo e se mova com arrogância “clownesca”, enquanto Morais Sarmento surge titubeante e quase histérico. Andrade Corvo fala com teatralidade e algum desdém, enquanto os polícias se pavoneiam com falsa ousadia.O modo de falar (com ou sem pressa, baixa ou alta voz, ironia, etc.) funciona como camada adicional de caracterização e crítica: por exemplo, as expressões trocistas dos polícias, o tom cínico de Vicente, o sarcasmo ansioso de Sarmento. O corpo, a postura e o olhar são parte integrante da construção destas personagens. As indicações de movimentos agitados ou conciliatórios contribuem para humanizar (ou desumanizar) as figuras e transmitir claramente ao público a sua natureza dúbia.
A encenação expressiva é, assim, parte da mensagem política da peça, vincando a artificialidade, a cobardia e a mesquinharia dos traidores.
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V. Síntese da crítica implícita na peça através dos traidores
O autor, e com ele a tradição do Romantismo português – onde o herói é confrontado com a corrupção dos cidadãos comuns e as forças repressivas do sistema –, utiliza estes personagens para lançar uma crítica pungente à hipocrisia, à passividade e à traição como fenómenos sociais.Cada traidor é, simultaneamente, resultado e peça do sistema: traem por medo, ambição, cobardia ou cegueira social, mas são rápidas caricaturas dos vícios perpetuados por uma sociedade parada no tempo. Assim, as personagens traidoras tornam-se espelhos da condição nacional pós-guerra civil: numa época em que a repressão era uma presença constante (seja na ditadura de D. Miguel, seja, por analogia, no Estado Novo), denunciaram-se as “pequenas traições” quotidianas que impedem qualquer progresso coletivo.
Face ao herói romântico, símbolo da liberdade e pureza moral, surgem as figuras vis da traição, incapazes de verdadeira grandeza. Essa tensão, característica da estética romântica, reforça o apelo à resistência e à denúncia do conformismo, valores que atravessam toda a peça.
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Conclusão
No conjunto, a análise dos traidores de *Felizmente há Luar!* permite compreender o seu papel fundamental enquanto catalisadores do conflito e instrumentos da repressão. Vicente, Andrade Corvo, Morais Sarmento e os polícias representam uma galeria multifacetada de personagens, cada uma expondo diferentes motivações para a traição: o desejo de subir na vida, o mero interesse material, o medo constante, a vaidade ingénua. São figuras que, longe de serem monstros, espelham as fraquezas individuais e coletivas da sociedade.A sua análise revela como a peça, para além do quadro histórico de 1817, constitui um libelo contra a passividade e a colaboração nos sistemas de opressão – servindo de alerta, também, para a contemporaneidade. Afinal, as características destes traidores (ambição, cobardia, resignação) continuam presentes nas dinâmicas do poder, tanto em Portugal como em qualquer sociedade.
Resta perguntar: quem, na nossa contemporaneidade, desempenha o papel destes traidores? Não persistem ainda os “Vicentes”, “Sarmentos” e “Corvos” do nosso tempo, disfarçados sob as mais variadas formas de oportunismo? A peça lança-nos, assim, o desafio do debate ético sobre poder, moralidade e cidadania. A sua mensagem, longe de datada, mantém-se urgente e necessária – felizmente, há luar para lançar luz sobre os pequenos e grandes traidores da nossa História.
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