Análise

Uso e função do gerúndio em Os Maias, de Eça de Queirós

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Tipo de tarefa: Análise

Resumo:

Explore o uso e a função do gerúndio em Os Maias, de Eça de Queirós, e aprenda como esta forma verbal enriquece a narrativa literária. 📚

O Gerúndio em “Os Maias”: Função, Estilo e Significado na Obra de Eça de Queirós

Introdução

Ao abordar o estudo da gramática portuguesa, o gerúndio impõe-se como uma forma verbal de grande relevância, não só pelo seu valor expressivo na fala quotidiana, mas também pela sofisticação que pode conferir à linguagem literária. O gerúndio, sendo uma das formas nominais do verbo, exprime normalmente uma ação em curso, continuidade ou simultaneidade relativamente a outra ação. O seu uso, contudo, não se limita a simples aspectos formais; no contexto literário, adquire funções mais complexas e subtilmente elaboradas, influenciando a própria estrutura narrativa.

“Os Maias”, magistral romance de Eça de Queirós publicado em 1888, é indubitavelmente uma das obras cimeiras da literatura portuguesa. Resultado da maturidade literária do autor, a narrativa expõe, com um realismo sofisticado, a decadência de uma família burguesa lisboeta e transporta o leitor para a Lisboa do final do século XIX, marcada por um ambiente de crítica social, progresso aparente e valores em erosão. Dentro desta riqueza estilística, o uso do gerúndio adquire papel relevante, espelhando movimentos, estados emocionais e ritmos do quotidiano das personagens.

Este ensaio tem como objetivo analisar aprofundadamente o uso do gerúndio em “Os Maias”, especialmente focando-se no terceiro capítulo do romance, onde a vida quotidiana, descrições psicológicas e pequenas ações ganham corpo através das formas nominais do verbo. Pretende-se demonstrar em que medida o gerúndio contribui para o estilo, o ritmo e o sentido do romance, bem como para a representação do tempo e do espaço literários.

Contextualização da Obra e do Autor

José Maria de Eça de Queirós figura entre os mais importantes escritores portugueses do século XIX, tendo marcado de forma indelével o realismo literário nacional. Diplomata, jornalista e crítico, Eça absorveu influências de Yorkshire, Paris e outras cidades europeias, transpondo para as suas obras um olhar perspicaz e simultaneamente irónico sobre a sociedade portuguesa. Essa formação cosmopolita e contacto com os movimentos literários europeus viriam a refletir-se em “Os Maias”.

Neste romance, Eça constrói uma narrativa minuciosa, rica em descrições, ironia subtil e personagens densas, cujas inquietações existenciais espelham um Portugal em crise de valores. “Os Maias” expõe o quotidiano, o lazer, a política, os amores e os dramas de Carlos da Maia e do seu círculo social, num fresco social e psicológico sem paralelo na literatura da época. O autor privilegia a observação detalhada e o uso criterioso de recursos linguísticos, entre os quais se destaca o gerúndio, que lhe permite capturar instantes, processos e atmosferas em tenaz transformação.

A linguagem nos “Os Maias” é notoriamente cuidada, revelando domínio da estrutura sintática e predileção por formas verbais complexas. O gerúndio surge como instrumento de enunciação do movimento, da expectação ou da permanência, sendo determinante na tessitura do texto.

O Gerúndio: Conceito, Funções e Características

O gerúndio, na língua portuguesa, apresenta-se tipicamente na forma “-ando” ou “-endo” (por exemplo, “andando”, “vendo”). Trata-se de uma forma nominal, não flexionada em pessoa, número ou género, funcionando geralmente como modificador verbal, indicando uma ação simultânea ou subsequente à do verbo principal.

Distinguindo-se do infinitivo (que expressa um conceito verbal de modo genérico, sem referência temporal) e do particípio (geralmente associado a um aspeto perfeito e terminado), o gerúndio destaca-se por introduzir nuance de continuidade e processo. Em português, pode desempenhar diversas funções:

- Expressão de simultaneidade: “Analisava o texto, sorrindo.” - Modo ou instrumento: “Aproximou-se correndo.” - Causa ou consequência: “Estando cansado, decidiu sair.”

Na fala informal surge, por vezes, o chamado “gerundismo” (exemplo: “vou estar ligando para si”), fenómeno frequentemente criticado, mas que revela a flexibilidade do gerúndio na oralidade. No entanto, a literatura culta, como a de Eça de Queirós, faz uso ponderado e estilisticamente justificado desta forma verbal, longe dos tiques vulgares ou redundantes.

O Gerúndio em “Os Maias”: Análise do Capítulo III

No capítulo III de “Os Maias”, Eça de Queirós dedica-se especialmente à descrição da rotina quotidiana da residência dos Maias em Lisboa, apresentando os ambientes, as personagens e os seus hábitos benignos ou triviais. As formas verbais no gerúndio aparecem como recurso subtil para ilustrar ações em curso, dando ritmo e fluidez à prosa de Eça.

Um levantamento atento revela a presença de formas como “passeando”, “olhando”, “falando”, entre outras. Por exemplo, numa das passagens descritivas do jardim da casa, Eça escreve: “E Carlos caminhava lentamente pelas avenidas de buxo, aspirando o cheiro das tílias e ouvindo, lá dentro, o relógio bater as horas.” Aqui, o uso dos gerúndios “aspirando” e “ouvindo” não só indica ações simultâneas ao “caminhar”, mas também dá ao leitor uma percepção sensorial, quase sinestésica, do momento representado. Através do gerúndio, Eça consegue transmitir não apenas o que a personagem faz, mas o modo como vive aquele instante, reforçando o carácter realista e envolvente da cena.

Noutra passagem, ao descrever as conversas no serão, encontramos: “Iam-se entretendo, contando histórias”. Nesta frase, “entretendo” e “contando” funcionam como marcadores de continuidade, sugerindo a repetição e duração da ação, sem necessidade de reiterar os sujeitos ou de fracionar o discurso.

O gerúndio permite ainda regressar à interioridade das personagens. Por exemplo: “Jorge ficou parado, esperando uma resposta que não vinha.” O uso do gerúndio “esperando” sugere hesitação, expectação e um tempo suspenso, recursos que ampliam a densidade psicológica dos intervenientes.

Importante notar que, nestes exemplos, o gerúndio não é usado para transmitir causalidade ou mera consequência, mas privilegia a sobreposição de processos, aproximando a narrativa da experiência sensível do leitor. A escolha desta forma verbal, em oposição ao uso do particípio (que indicaria ação concluída) ou do infinitivo (que distanciaria a ação do tempo em curso), sublinha a fluidez e simultaneidade que Eça pretende imprimir à cena.

Ao longo do capítulo III, observamos uma distribuição equilibrada do gerúndio, evitando formas excessivamente complexas, mas incorporando-o em momentos chave para desenhar movimentos, ambientes e estados de espírito, numa Lisboa burguesa em perpétua transformação.

Gerúndio e Estilo Narrativo Queirosiano

O estilo narrativo de Eça de Queirós caracteriza-se pela minúcia descritiva, ironia refinada e um rigor sintático distintivo. O gerúndio insere-se, nesta estratégia, como elemento que espelha o dinamismo e as subtilezas do mundo retratado. Através do uso criterioso do gerúndio, Eça aproxima-se do realismo europeu, mas imprime-lhe uma marca portuguesa, bastante evidente pela atenção ao detalhe, aos pequenos gestos e à cadência vernacular.

Além do valor sintático de ligação entre ações, o gerúndio reforça o tratamento psicológico das personagens, permitindo ao autor mostrar estados de espera, desejo e frustração de modo mais insinuante. Se recorrermos a uma leitura atenta, percebemos que o gerúndio recorre frequentemente a episódios de tensão ou introspeção, funcionando muitas vezes como pano de fundo para diálogos ou monólogos internos.

Comparando o gerúndio com outros recursos estilísticos de “Os Maias”, como o uso reiterado de advérbios (“suavemente”, “lentamente”), a integração de neologismos (“pianista”, “palacete”) ou as enumerações descritivas, percebemos que Eça valoriza a construção densa e fluida da frase, atribuindo-lhe corporeidade e movimento. A escolha pelo gerúndio é, pois, deliberada, enquadrando-se numa sintaxe complexa mas nunca confusa.

Críticos literários portugueses do século XX, como Óscar Lopes ou Maria Alzira Seixo, apontaram, por diversas vezes, a competência de Eça na manipulação de formas verbais. Embora estes estudiosos nem sempre se demorem no gerúndio em específico, reconhecem-lhe valor fulcral na construção do realismo e na criação de atmosferas envolventes.

Implicações Pedagógicas e Linguísticas

O estudo do gerúndio em “Os Maias” revela-se de particular interesse para os estudantes de língua portuguesa, seja no ensino básico, seja no secundário. Por um lado, exemplifica o uso legítimo e sofisticado do gerúndio em discurso formal e literário, ajudando a distinguir os usos apropriados e os desvios do “gerundismo” que surgem, por vezes, na oralidade.

A análise prática de excertos onde o gerúndio se destaca pode ser utilizada em sala de aula como exercício de interpretação gramatical e literária, ajudando os alunos a consolidar competências de leitura, análise textual e produção escrita. Poder-se-ia propor, por exemplo, a reescrita de passagens sem o gerúndio, comparando o efeito de continuidade e ritmo que se perde, ou desafiar os estudantes a construir pequenos textos usando formas nominais.

Além disso, esta abordagem favorece o desenvolvimento do sentido crítico dos alunos, ao mostrar que a gramática não serve apenas para “decorar regras”, mas é instrumento de criação de sentido e de representação estética.

Conclusão

O uso do gerúndio em “Os Maias”, e em particular no capítulo III, emerge como um traço estruturante do estilo de Eça de Queirós. Longe de constituir mero ornamento gramatical, o gerúndio cumpre funções essenciais na articulação do tempo narrativo, na construção de atmosferas e na representação psicológica das personagens, tornando-se elemento chave na fluidez e densidade do texto.

A sua análise permite compreender como a língua, quando artística e conscientemente empregue, transcende o papel instrumental, tornando-se meio privilegiado de expansão do pensamento, do sentir e da imaginação literária. Para os estudantes portugueses, investigar o gerúndio em Eça de Queirós é, por isso, um excelente exercício de rigor gramatical, de sensibilidade estilística e de compreensão da herança literária nacional.

No futuro, poderá ser interessante alargar esta análise comparando o uso do gerúndio noutras obras realistas portuguesas, ou explorar o impacto de formas verbais no discurso literário europeu, contribuindo assim para um olhar interdisciplinar sobre língua, literatura e cultura.

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Anexos

- Exemplos selecionados do capítulo III: - “E Carlos caminhava lentamente, aspirando o cheiro das tílias e ouvindo...” - “Iam-se entretendo, contando histórias e sorrindo.” - Glossário de termos linguísticos: - *Gerúndio*: forma verbal nominal que exprime ações em processo. - *Simultaneidade*: execução de duas ou mais ações ao mesmo tempo no discurso. - *Realismo*: movimento literário centrado na representação fiel do quotidiano.

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Por tudo isto, fica evidente que o estudo do gerúndio em “Os Maias” proporciona um valioso percurso pelo uso consciente da língua, revelando o génio literário de Eça de Queirós e reforçando a riqueza do património cultural português.

Perguntas de exemplo

As respostas foram preparadas pelo nosso professor

Qual o uso do gerúndio em Os Maias de Eça de Queirós?

O gerúndio em Os Maias é utilizado para expressar simultaneidade, continuidade e detalhes do quotidiano das personagens, enriquecendo o estilo literário da obra.

Quais as funções do gerúndio em Os Maias segundo a análise literária?

No romance, o gerúndio serve para indicar ações em curso, movimentos das personagens e atmosferas em transformação, contribuindo para o realismo e ritmo narrativo.

De que forma o gerúndio contribui para o estilo de Os Maias?

O gerúndio confere fluidez à narrativa, permite descrever processos e estados emocionais, e ajuda a captar instantes e a evolução dos acontecimentos.

Qual a diferença entre gerúndio, infinitivo e particípio em Os Maias?

O gerúndio indica continuidade e simultaneidade, o infinitivo refere ações de forma genérica, e o particípio apresenta ações já terminadas, cada qual com função própria na narrativa.

Como Eça de Queirós utiliza o gerúndio no terceiro capítulo de Os Maias?

No terceiro capítulo, Eça usa o gerúndio para descrever a vida quotidiana e os pensamentos das personagens, potenciando a representação do tempo e do espaço.

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