Blimunda e Baltazar em Memorial do Convento: amor e resistência
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 22.01.2026 às 18:08
Tipo de tarefa: Análise
Adicionado: 20.01.2026 às 16:20
Resumo:
Explore a força de Blimunda e Baltazar em Memorial do Convento, descobrindo o amor e a resistência no contexto social e histórico do século XVIII.
Memorial do Convento: Blimunda e Baltazar — Duas Forças do Povo Português
Introdução
José Saramago, vencedor do Prémio Nobel da Literatura, propôs em *Memorial do Convento* um olhar radicalmente humano sobre o Portugal do início do século XVIII. Esta obra, publicada em 1982, transporta-nos para o reinado de D. João V, um tempo de magnificência arquitetónica materializada na construção do Convento de Mafra, mas também de profundas desigualdades sociais, domínio despótico e repressão religiosa feroz a cargo da Inquisição. Neste cenário, emergem duas figuras singulares: Blimunda e Baltazar, protagonistas cuja história atravessa os acontecimentos e o simbolismo do romance.Ambos encarnam, à sua maneira, a força obscura e resiliente do povo português, num contexto de adversidade extrema. São personagens desenhadas com um traço psicológico e simbólico marcante, cujas jornadas se entrecruzam com o destino do país e com a crítica sagaz de Saramago ao poder instituído. Esta análise procurará, assim, compreender Blimunda e Baltazar na sua individualidade e na sua relação, salientando a relevância do seu amor e da sua resistência, e ligando sempre os seus percursos ao contexto social, político e literário da época.
Blimunda Sete-Luas: A Mulher que Vê o Invisível
Blimunda surge perante o leitor como uma mulher aparentemente anónima, oriunda do povo sofredor, mas ao mesmo tempo extraordinária graças ao dom de ver aquilo que escapa ao olhar comum. Este poder manifesta-se quando se encontra em jejum, permitindo-lhe perscrutar tanto as entranhas do corpo humano como as vontades ocultas de cada um. O seu nome, marcado por uma sonoridade pouco habitual, sugere exotismo e outras geografias, enquanto “Sete-Luas” a aproxima de uma esfera quase mágica, estabelecendo uma ligação profunda com o universo feminino e o mundo do mistério. Sabemos, por alusões do texto, que foi o padre Bartolomeu Lourenço quem a alcunhou assim, reconhecendo na jovem uma luminosidade ímpar.Na sua descrição física, Blimunda destaca-se não pela beleza tradicional, mas pela força e determinação. O romance insinua uma calma quase impenetrável e um olhar firme. Psicologicamente, é uma personagem complexa: carrega os traumas da infância e a dor da perda da mãe às mãos da Inquisição, mas resiste, sem ceder ao desespero. A sua perseverança, aliada à capacidade de ver o que está oculto, tornam-na uma figura de esperança cristalina para os que a rodeiam.
A nível simbólico, Blimunda representa a face materna do povo oprimido. Ela reúne em si uma dimensão lunar: é ao mesmo tempo companhia na escuridão, luz ténue que guia, mas também guardiã do oculto e do invisível. No plano das relações, é leal e carinhosa, tanto perante Baltazar como em relação àquele círculo restrito dos companheiros com quem partilha a aventura da passarola. Mantém sempre um papel ativo, recusando o destino passivo muitas vezes reservado à mulher na literatura portuguesa. Mesmo na adversidade, preserva a serenidade e não abdica da sua capacidade de sonhar, posicionando-se, assim, como catalisadora de mudança e liberdade.
Baltazar Sete-Sóis: O Homem da Terra e da Luta
Baltazar Mateus, conhecido por Sete-Sóis, é o contraponto solar a Blimunda. Ex-combatente da Guerra da Sucessão de Espanha, regressa à pátria mutilado — falta-lhe a mão esquerda. Esta ausência molda a sua identidade, tornando-se símbolo da perda coletiva e do sacrifício inútil exigido ao povo pelos poderosos. Ao contrário de heróis épicos tradicionais, Baltazar não procura a glória; aceita as agruras do destino, encarando a vida com uma humildade e dignidade que impressionam.O seu nome “Sete-Sóis”, atribuído também pelo padre Bartolomeu, associa-o ao elemento masculino, vital e luminoso. Assim como Blimunda é Lua, Baltazar é Sol, ambos encontrados no número sete, cifra de perfeição, unidade e totalidade numa tradição mística e cristã. Como representante dos milhares de homens anónimos que erguem o convento, personifica o suor, o engenho e a resistência silenciosa face à opressão.
A postura de Baltazar perante a vida é de aceitação, mas não de resignação cega: mesmo marcado pela dureza da guerra e pela pobreza, não se rende ao ódio nem ao ressentimento. Ao juntar-se ao projeto utópico da passarola, revela-se personagem de sonho e ação, disposto a arriscar pela inovação técnica e pela liberdade. A sua trajetória aponta ainda para uma crítica aos sistemas que esmagam o indivíduo — a condenação futura à fogueira pela Inquisição traduz o calvário de todos os que ousam desafiar o statu quo.
Baltazar é, pois, a figura do “povo invisível”, que carrega nas costas a construção da História e cujo sacrifício raramente é reconhecido. No entanto, é também o homem que ama sinceramente, o companheiro fiel, o trabalhador incansável e, por fim, o visionário silencioso.
Blimunda e Baltazar: Amor, Resistência e União Simbólica
A relação entre Blimunda e Baltazar transcende largamente a história de um casal romântico. Envolvem-se amorosamente num contexto dramático: conhecem-se no momento em que o terror do auto-de-fé paira sobre Lisboa. Não há cerimónias religiosas a uni-los, nem aprovação do Estado; vivem juntos fora dos padrões impostos, numa liberdade precária mas assumida. Esse amor singelo contrasta com a pompa artificial da corte e com os casamentos arranjados das elites.Blimunda e Baltazar complementam-se na essência: ela detentora da visão interior, ele do saber prático e do gesto concreto. A sua relação desenha as linhas do equilíbrio cósmico — Lua e Sol —, luz e sombra, razão e sentimento, sonho e execução. Esta complementaridade aparece expressa em diversos momentos, nomeadamente na construção da passarola, onde ambos colocam em prática as suas capacidades únicas para servir um ideal mais amplo.
O amor deles é, também, um gesto de resistência: desafia abertamente as regras da Igreja e da autoridade monárquica, mostrando que é possível construir intimidades autênticas mesmo sob vigilância do poder. O romance recusa ceder ao desencanto; pelo contrário, aposta na ternura, no cuidado e na persistência do afeto, mesmo quando tudo parece naufragar.
A união dos dois, simples mas densa, torna-se símbolo de uma esperança maior, a ideia de que a verdadeira mudança nasce sempre do gesto livre e solidário entre iguais. Esta visão de Saramago ressoa com outras obras do autor, como *Ensaio sobre a Cegueira*, onde, de novo, são os anónimos que resgatam a dignidade perdida.
A Passarola: Sonho, Ciência e Resistência
A construção da passarola representa, na obra, um dos pontos de contacto mais profundos entre Blimunda, Baltazar e Bartolomeu de Gusmão. O sonho de voar não é simples curiosidade científica, mas uma declaração de fé na possibilidade de transcender limitações físicas e sociais impostas. Blimunda fornece as “vontades” humanas, visíveis apenas a quem partilha o seu dom; Baltazar, por sua vez, é engenhoso na execução dos mecanismos.A máquina, alimentada por vontades humanas, simboliza a energia vital que reside nos sonhos do povo, sistematicamente ignorada pelos poderosos. O projeto coletivo opõe-se à monumentalidade vazia do convento real: a passarola transporta a esperança de libertação, enquanto o convento é reflexo da opressão e vaidade régia.
O próprio fracasso do projeto — a perseguição da Inquisição e o desaparecimento final de Baltazar — reenvia-nos para o ciclo de inovação e repressão tão característico da história portuguesa e europeia da época. Contudo, o romance deixa subentendida a força da utopia: mesmo que esmagados, os sonhos resistem nos corações que amam e persistem.
Contexto Histórico e Social
O Portugal de D. João V era marcado por uma ordem hierárquica rígida, onde a corte vivia em luxo ostensivo, enquanto o povo suportava as consequências. A Inquisição, com os seus autos-de-fé, garantia não só o controle religioso, mas também político, reprimindo qualquer desvio ou inovação. As personagens principais — Blimunda e Baltazar — pertencem aos margens dessa sociedade, operando numa esfera em que a sobrevivência diária exige pragmatismo, audácia e solidariedade.O romance funde, de maneira única, o registo ficcional com o rigor histórico: Saramago, consciente das falhas e silêncios da chamada “história oficial”, devolve voz aos esquecidos, expondo a verdade pungente dos “vencidos da vida” nas palavras de Eça de Queirós. As figuras de Blimunda e Baltazar humanizam a História, lembrando que ela não se faz apenas de reis e generais.
Conclusão
Blimunda e Baltazar, em *Memorial do Convento*, escapam à condição de simples personagens literárias. Tornam-se alegorias de duas forças eternas: a visão e o labor, o sonho e a perseverança. A sua história carrega o peso do sofrimento do povo português, mas também a esperança resistente que atravessa séculos de adversidade.Ao apostar num casal que desafia todas as convenções — sociais, religiosas e políticas —, Saramago resgata a humanidade autêntica e o poder transformador dos afetos simples. No fim, o romance deixa uma mensagem de otimismo cauteloso: mesmo quando esmagados pelo autoritarismo, há sempre um espaço para a liberdade interior, para a criatividade e para o amor.
O leitor contemporâneo é desafiado a reconhecer os paralelismos com o presente: em tempos de incerteza e repressão, a resposta poderá sempre estar na força dos laços humanos e no poder da imaginação coletiva. *Memorial do Convento*, através da viagem simbólica de Blimunda e Baltazar, convida-nos a tomar parte ativa nesse voo, entre as sombras das luas e o fulgor dos sóis.
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