Análise de A Mensagem (Fernando Pessoa): mito, história e sonho português
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 22.01.2026 às 12:39
Tipo de tarefa: Análise
Adicionado: 21.01.2026 às 7:33

Resumo:
Explore a análise de A Mensagem de Fernando Pessoa e compreenda o mito, a história e o sonho de Portugal nesta obra central da literatura nacional. 📚
A Mensagem de Fernando Pessoa: O Mito, a História e o Sonho de Portugal
Introdução
Entre os grandes nomes da literatura portuguesa, Fernando Pessoa permanece incontornável, não apenas pela vastidão da sua obra, mas pela capacidade singular de dialogar com os mais fundos arquétipos do nosso imaginário coletivo. Dentro do seu legado, *A Mensagem* é uma peça excecional, não só enquanto marco da poesia portuguesa do século XX, mas também como condensação do sonho, do mito e da reflexão sobre a identidade nacional. Composta entre 1913 e 1934, esta obra nasce num contexto de incerteza nacional, um período de revoluções, quedas de regimes e questionamento do rumo do país após o fim da monarquia e no tumultuoso nascimento da República.Através desta análise, procurarei demonstrar como *A Mensagem* ultrapassa o registo da epopeia tradicional para se tornar um poema nacional onde mito, história, profecia e lirismo se entrelaçam, apresentando não só o passado glorioso de Portugal, mas lançando um apelo profético à renovação espiritual da nação. Percorrerei a estrutura tripartida da obra, a simbologia dos mitos usados por Pessoa, a influência sebastianista e o ideal do Quinto Império, culminando numa reflexão acerca do alcance universal da mensagem pessoana.
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I. O Contexto Histórico e Literário de *A Mensagem*
Ao longo das primeiras décadas do século XX, Portugal atravessava uma profunda crise de identidade: o desmoronar do velho regime monárquico, a instabilidade da Primeira República e o espectro da perda da relevância internacional após o declínio do império colonial provocavam frustração, desilusão e um latente desejo de regeneração. Este contexto é fundamental para perceber a génese de uma obra como *A Mensagem*, que emerge como resposta e reflexão sobre o papel de Portugal no mundo.Fernando Pessoa, apesar de inovador e aberto ao espírito do Modernismo – movimento que, em Portugal, ganhava expressão já com a presença da revista *Orpheu* –, revelou um compromisso com a herança literária nacional. Relembra-nos inevitavelmente *Os Lusíadas*, de Camões, a epopeia clássica do século XVI, que canta a gesta heroica dos marinheiros lusos – agora transposta por Pessoa para uma órbita mais simbólica, interior e universalizante. Enquanto Camões narra acontecimentos heroicos numa linha temporal (linearidade épica tradicional), Pessoa propõe uma epopeia circular e simbólica, onde o passado é reatualizado pelo sonho do futuro.
É também notório o diálogo com outros movimentos europeus do século XX, nomeadamente o simbolismo e certo nacionalismo, que, sem se confundirem com tendências políticas, procuram resgatar valores e arquétipos para um sentido coletivo de pertença e missão.
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II. Estrutura e Temática Central de *A Mensagem*
*A Mensagem* estrutura-se em três partes distintas, mas intimamente ligadas: "Brasão", "Mar Português" e "O Encoberto". Cada uma delas corresponde a etapas do desenvolvimento de Portugal enquanto ideia e projeto coletivo.Brasão ocupa-se das origens: ali encontramos evocadas figuras fundadoras como D. Afonso Henriques, representado já não apenas como um rei histórico, mas como o arquétipo do Herói que funda e dá corpo à Pátria. Este brasão é mais que um símbolo; é um ventre materno de onde Portugal emerge, impulsionado pela ânsia de destino.
Em Mar Português, o foco desloca-se para a expansão marítima – o momento de glória dos Descobrimentos. Para Pessoa, o mar não é apenas o elemento natural, mas metáfora do desconhecido, do risco, da transcendência. Os navegadores aqui surgem, não como meros executores da política expansionista, mas como visionários, "gigantes" que sacrificam tudo numa demanda de absoluto – como exemplifica o poema “Portuguese Sea” ao afirmar: "Quem quis sempre pôde, sempre alcançou…". Esta secção exprime o auge da alma lusa, marcada ainda pela dimensão trágica do fado, outro traço fundacional do sentimento nacional.
Por fim, em O Encoberto, faz-se o anúncio profético: tudo quanto caiu renascerá. Central torna-se a figura de D. Sebastião, o rei desaparecido em Alcácer-Quibir, agora mito redentor, promessa de um tempo novo – o Quinto Império. Esta terceira parte é atravessada por simbolismos messiânicos e reflexões sobre o renascimento, num tom quase apocalíptico.
O movimento entre estas três secções pode ser lido como um ciclo: nascimento, apogeu, decadência e esperança de renascimento. A história coletiva surge fundida com mitos ancestrais, espelhando inquietações universais – o destino, o sacrifício, a esperança.
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III. O Poder do Mito em *A Mensagem*
Na tradição portuguesa, os mitos desempenham um papel fundamental para a coesão e identidade do povo. Fernando Pessoa compreendeu, tal como Edgar Quinet sobre as nações latinas, que “um povo só é grande quando sonha”. E o motor do sonho é o mito, matéria-prima do inconsciente coletivo e força-motriz das civilizações.Em *A Mensagem*, os grandes vultos históricos – Afonso Henriques, D. Dinis, os Infantes, os Navegadores, D. Sebastião – são estilizados enquanto símbolos e arquétipos. D. Afonso Henriques não é apenas o conquistador, é “O Fundador”, pai de todos os herdeiros da esperança nacional. As mães fundadoras surgem nos versos como o “antigo seio” que vela por Portugal, reminiscente da antiga Deusa-Mãe das culturas ancestrais. Os navegadores, como Vasco da Gama ou Bartolomeu Dias, deixam de ser agentes históricos para se tornarem apóstolos de uma missão universal, desbravadores do abismo numa busca metafísica.
O próprio “O Encoberto” aparece como símbolo profético do potencial oculto, da energia inata de renascimento do povo português – um Jungian shadow nacional, que aguarda ser ativada. Assim, a mitologia portuguesa é urdida não para escamotear a verdade histórica, mas para apurá-la no crisol do sentido e do destino.
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IV. O Sebastianismo: Profecia e Messianismo
No coração de *A Mensagem* pulsa o mito de D. Sebastião. Morto ou desaparecido na desastrosa batalha de Alcácer-Quibir (1578), D. Sebastião converte-se num símbolo messiânico: o “Encoberto”, o rei que voltará numa manhã de nevoeiro para redimir Portugal. O sebastianismo impregnou durante séculos a mentalidade portuguesa, sendo aproveitado ora politicamente, ora como sonho do impossível nos tempos de crise.Pessoa resgata esse mito para lhe atribuir nova força. Sebastão já não é apenas um redentor político, mas símbolo do desejo atávico de superação, do anseio pelo absoluto. Ele encarna a esperança de um Portugal capaz de se reinventar, de romper a letargia e assumir o seu desígnio espiritual. Como escreveu Pessoa:
*"O sonho é ver as formas invisíveis da distância imprecisa, e, com sensíveis movimentos da esperança e da vontade, buscar na linha fria do horizonte a árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte— os beijos merecidos da Verdade."*
Este messianismo, paradoxalmente, alimenta o senso de fado: esperar mesmo quando a esperança parece impossível. Daí a força do sebastianismo em momentos de crise nacional, como a de Pessoa.
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V. O Quinto Império: Utopia e Realização Espiritual
Para Pessoa, a verdadeira vocação de Portugal não é a conquista material, mas a liderança espiritual – a realização de um “Quinto Império”, sucessor dos quatro grandes impérios da Antiguidade (babilónico, medo-persa, grego e romano). Mas ao contrário destes, o Quinto Império será da Cultura, do Conhecimento, do Espírito. Em “O Encoberto”, surge como meta e promessa:*"Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!"*
Aqui, Pessoa propõe uma missão quase mística: Portugal como centro de uma nova fraternidade universal, onde as armas cedem à cultura e o domínio político à influência espiritual. Esta visão utópica influencia também escritores posteriores, como Agostinho da Silva, que no século XX retoma o projeto do império cultural português.
Num tempo de crise, a proposta de Pessoa é ousada: ao invés de chorar a perda do império colonial, transformar Portugal numa pátria do espírito, irradiando cultura, tolerância e universalidade. A *Mensagem* torna-se assim um apelo à superação dos limites e à renovação criativa do ser nacional.
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VI. O Carácter Épico-Lírico de *A Mensagem*
Caso inédito na tradição literária portuguesa, *A Mensagem* funde harmoniosamente o tom épico com o lirismo introspectivo. Se o épico é feito de grandes gestos, personagens coletivas e acontecimentos fundadores, cabe ao lírico resgatar as emoções, ansiedades e hesitações da alma.Pessoa utiliza nesta obra uma vastíssima gama de recursos estilísticos: o uso calculado do ritmo e da sonoridade, os jogos de metáforas – “o mar salgado”, “o rosto futuro do passado” –, a própria estrutura fragmentada, que ora narra, ora medita. Esta combinação aproxima o passado heroico da experiência emocional do presente, instilando no leitor simultaneamente o orgulho e a inquietação.
A musicalidade dos versos, a escolha criteriosa das palavras, fazem com que narração e sentimento andem de mãos dadas, como na famosa invocação “Ó mar salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal!”.
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Conclusão
Revisitada a obra, percebe-se que *A Mensagem* representa uma reinvenção da epopeia nacional: feita agora de símbolos e mitos, ansiedade e profecia, dando voz ao espírito histórico de Portugal enquanto nação sujeita a renascimentos cíclicos. No coração da obra late o sebastianismo e a promessa do Quinto Império, utopia humanista que transcende a política e propõe um Portugal renovado no plano do espírito. O seu valor não está só na evocação do passado, mas sobretudo na capacidade de inspirar uma contínua reflexão sobre a identidade e as possibilidades de futuro.Num mundo em permanente crise, a visão de Pessoa mantém-se atual: é pelo sonho, pelo conhecimento e pelo espírito que as nações se salvam e se reinventam. *A Mensagem* continua, por isso, a ser farol para todos quantos, como os portugueses do passado e do presente, recusam resignar-se à mediocridade e aspiram a um sentido maior para a sua existência coletiva.
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