Análise do excerto final de Memorial do Convento
Tipo de tarefa: Análise
Adicionado: hoje às 7:39
Resumo:
Explore a análise do excerto final de Memorial do Convento e compreenda os símbolos, personagens e temas centrais da obra de José Saramago 📚
O excerto final do "Memorial do Convento", de José Saramago, é de uma grande densidade simbólica e concentra muitos dos temas centrais do romance. Este trecho encerra o destino trágico de Baltasar Sete-Sóis e estabelece a união transcendental entre ele e Blimunda. Vou analisar detalhadamente o significado deste excerto, relacionando-o com o todo da obra e com o modo como Saramago interpreta o contexto histórico e humano.
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1. Contexto do excerto:
O trecho situa-se na cena final do romance, durante um auto-de-fé da Inquisição, em Lisboa, onde vários supliciados são queimados como hereges. Baltasar Sete-Sóis encontra-se entre os condenados, sendo identificado de forma subtil pela referência à ausência da mão esquerda (que lhe foi decepada numa mutilação de guerra) e pelo aspeto da barba enegrecida pela fuligem. Blimunda, dotada do dom de ver as “vontades” das pessoas, assiste à execução e presencia o momento em que a vontade de Baltasar se liberta com a sua morte.
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2. Análise simbólica:
- A morte de Baltasar: O conjunto dos condenados reduz-se a “onze supliciados”, figura de injustiça e sacrifício humano perpetrados pela Inquisição. O facto de “os rostos mal se distinguirem” denuncia a desumanização imposta pelo poder repressivo, para quem as vítimas deixam de ter identidade. No entanto, o narrador destaca Baltasar por uma marca única — a mão decepada e a expressão rejuvenescida pela fuligem — sugerindo ironicamente uma espécie de purificação ou regresso à inocência.
- A presença de Blimunda: Blimunda é testemunha, mas também agente fundamental no destino de Baltasar. Possui, desde o início, um olhar especial sobre a essência humana, sendo capaz de ver as “vontades” das pessoas — uma energia interior que alimentou a “passarola” de Bartolomeu de Gusmão. A sua intervenção final, ao chamar “Vem”, é de uma ternura extrema e aponta para uma ligação que transcende a morte.
- Libertação da vontade: Quando “desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis”, surge uma visão: não ascende “às estrelas”, pois “à terra pertencia e a Blimunda”. Esta frase é profundamente reveladora. Em vez de sugerir uma ascensão celeste ou uma fuga espiritual, Saramago vinca o carácter profundamente humano dos protagonistas: a vontade de Baltasar, força vital última, arraiga-se ao amor terreno e concreto por Blimunda, recusando-se a dissolver-se no absoluto celeste.
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3. Relação com os temas do romance:
- Humanismo e resistência: O livro faz a denúncia do autoritarismo, da intolerância religiosa e da repressão dos desejos e sonhos individuais pela máquina histórica (no romance, tanto a construção colossal do convento, como os autos-de-fé). Baltasar e Blimunda representam, como figuras anónimas (“pessoas comuns”), os eternos resistentes a esse poder esmagador. O seu amor, e as suas vontades, sobrevivem onde a História oficial apenas regista nomes de reis, arquitetos, inquisidores.
- A força das vontades: Um dos grandes motes do romance é a força das “vontades” humanas — aquilo que de mais íntimo, potente e secreto existe em cada pessoa. O final reforça a ideia de que a verdadeira transcendência não está na glória, nem nos dogmas religiosos, mas na ligação profunda entre seres humanos e na capacidade de sonhar e persistir apesar da adversidade.
- Amor como redenção: Em vez de uma perspectiva religiosa tradicional, Saramago apresenta o amor entre Baltasar e Blimunda como espaço de redenção, contrapondo-o à violência institucionalizada da Igreja e do Estado.
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4. Caráter irónico e crítico:
Saramago não oferece consolo fácil. A morte de Baltasar é brutal, desumana, mas a simbologia da libertação da vontade recusa a resignação: há uma dimensão imortal no afeto humano que desafia o poder. O romance termina, assim, num registo de esperança amarga: vencidos pelas circunstâncias, Baltasar e Blimunda resistem nas pequenas eternidades da memória e do amor.
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Conclusão
O excerto final sintetiza a mensagem essencial do "Memorial do Convento": apesar da história ser feita de sofrimento, opressão e silenciamento, permanece sempre a possibilidade de libertar a vontade — que se realiza na ligação entre pessoas, no amor e na memória partilhada. Baltasar, ao morrer, não se dissolve no esquecimento: a sua vontade permanece “à terra” e a Blimunda. Saramago, nesta página final, assina um tributo à condição humana, celebrando a energia anónima que move a história real, mais poderosa e duradoura do que qualquer convento ou dogma.
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