Transformações sociais e culturais nas primeiras décadas do século XX
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 17.01.2026 às 15:34
Tipo de tarefa: Redação de História
Adicionado: 17.01.2026 às 14:40
Resumo:
Descubra as transformações sociais e culturais nas primeiras décadas do século XX: urbanização, cultura de massas, género e mudanças no quotidiano em Portugal.
Mutações no Comportamento e na Cultura: Uma Análise das Transformações Sociais e Culturais das Primeiras Décadas do Século XX
Introdução
As primeiras décadas do século XX testemunharam uma das mais profundas transformações na vida social, económica e cultural da história contemporânea, sobretudo nas figuras urbanas emergentes da Europa – e, com especificidades, em Portugal. O quadro que se estabelece entre o final do século XIX e o período entre guerras caracteriza-se pelo crescimento das cidades, disseminação de novas tecnologias, desenvolvimento de uma cultura de massas e alterações sensíveis nas relações sociais e nas mentalidades. Estas mutações, produto de fatores económicos, demográficos, tecnológicos e ideológicos, não se processaram de forma homogénea, mas desenharam novas formas de estar, pensar e sentir que afetaram o quotidiano, os valores e as referências coletivas.Neste ensaio, pretendo debater até que ponto as mudanças estruturais no espaço urbano, no mundo do trabalho e nas ideias científicas e políticas redefiniram não só comportamentos, mas também padrões de sociabilidade, práticas de lazer, lugar do género e perceções sobre autoridade, saber e individualidade – especificamente, observando tanto as tendências internacionais como o cenário português. O texto estará organizado em seis grandes partes temáticas, dedicando atenção a casos concretos e evidências empíricas nacionais, bem como a resistências locais e limitações das mudanças ocorridas.
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I. Urbanização, Trabalho e Vida Quotidiana: O Novo Ritmo Urbano
1. A urbanização e as migrações internas
Durante o virar do século, o crescimento da população urbana constitui-se como traço definidor da modernidade. Em metrópoles como Paris e Londres, as massas deslocam-se para os centros citadinos em busca de trabalho industrial ou serviços (restauração, comércio, transportes), fenómeno que, em Portugal, encontra paralelo sobretudo em Lisboa e Porto. Os recenseamentos nacionais apontam para um aumento sistemático do número de residentes urbanos entre 1900 e 1930 – só em Lisboa, a população duplicou entre 1870 e 1930, com a expansão de bairros suburbanos e periféricos (Areeiro, Campo de Ourique, Boavista). Esta nova concentração humana obrigou a redefinir políticas de habitação, redes de transporte – como o aparecimento dos elétricos carruagens puxadas a electricidade – e infraestruturas sanitárias, enfrentando não raramente problemas de salubridade e sobrelotação.Não só a paisagem se transformou. O modo de viver e os ritmos do quotidiano mudaram radicalmente: o relógio e o horário industrial tornam-se centrais, marcando a jornada e o tempo livre. Novas rotinas surgem, como o café da manhã apressado para apanhar o comboio suburbano ou as longas filas diante das pensões operárias ao fim de cada turno.
2. Transformações no mundo do trabalho
A passagem de uma sociedade dominada pela agricultura e pequenos ofícios para outra centrada no fabrico mecanizado e nos serviços revolucionou não só a economia, mas a própria subjetividade dos trabalhadores. O tempo de trabalho padroniza-se, implantam-se regulamentos internos exigentes, as jornadas são fiscalizadas de forma inédita. Nas fábricas têxteis do Vale do Ave ou nas oficinas do Barreiro, instauram-se novos métodos de disciplina colectiva e penalizações garantidas por regulamentos expostos à entrada da fábrica.Com essa reorganização, observa-se uma divisão mais nítida entre o espaço público e o espaço privado. O lar converte-se progressivamente num local de repouso e de consumo, desenhado para receber os bens agora industrializados e promovidos pelas novas campanhas publicitárias.
3. Rotina e sociabilidade urbana
O novo quotidiano urbano não se limita ao trabalho: o lazer e a sociabilidade experimentam mutações. As praças centrais, os cafés (como o emblemático Café Nicola em Lisboa), os cinemas e os teatros tornam-se pontos de encontro de uma nova pluralidade social. A vida citadina, com a sua multidão anónima, favorece tanto o anonimato como experiências marcadas pela efemeridade e diversidade. A aventura da cidade fascina escritores que a captam no olhar do flâneur (por exemplo, Raul Brandão, Os Pobres), em oposição à coesão das aldeias tradicionais, ainda caracterizadas por práticas comunitárias e por redes de vizinhança mais estáveis.---
II. Cultura de Massas e a Revolução das Práticas de Consumo
1. Novos meios de comunicação e indústrias culturais
A expansão do jornalismo ilustrado, a emergência do cinema e da rádio criaram formas inéditas de consumo de informação e entretenimento, levando, de forma acelerada, imagens, valores e modas às populações urbanas e rurais. Em Portugal, jornais como O Século ou A Capital multiplicam tiragens, e o aparecimento da revista Ilustração transforma o imaginário público. O cinema, com as primeiras salas fixas em Lisboa e Porto, democratiza o acesso ao espetáculo – um anúncio de O Diário de Notícias em 1927 prometia “uma tarde na companhia dos ídolos de Hollywood”, testemunhando a globalização dos gostos e fantasias.Simultaneamente, a publicidade – visível em cartazes e nas vitrines das novas lojas de departamentos, como o Grandella – apela a novos hábitos de compra, promovendo produtos que prometem modernidade e estatuto social à classe média emergente.
2. Lazer, espetáculo e tempo livre
O aumento relativo do tempo livre, impulsionado por lutas laborais e por algumas conquistas legais, proporcionou o florescimento de novas formas de lazer: desde as matinés nos cinemas aos clubes desportivos – como o Sporting, o Benfica ou as instalações do Futebol Clube do Porto. Nos anos 20, ensaios e revistas comentam repetidamente o “vício dos bailes” ou a afluência aos cabarés lisboetas, fenómenos vistos ora como sinal de progresso, ora como ameaça à moralidade. O fim de semana torna-se, para segmentos urbanos, sinónimo de lazer ativo: passeios à Linha de Cascais, piqueniques na Mata de Monsanto, excursões a Sintra.3. Massificação e diferenciação cultural
Ao mesmo tempo que se consolidam gostos e práticas padronizadas, surgem formas de diferenciação cultural. A juventude escolar e universitária cria os seus próprios símbolos (uniformes académicos, revistas satíricas como O Gorro), enquanto outros grupos – como as primeiras vanguardas artísticas – experimentam rupturas de estilo, distinguindo-se da cultura dominante. Esta tensão entre homogeneização e particularismo é visível nas reações à música popular, à moda importada e às novidades urbanas, como o jazz ou a dança do charleston, alvo de polémica frequente nas páginas de opinião de jornais como A Voz.---
III. Relações de Género e a Nova Configuração da Família
1. Mudanças demográficas e familiares
A transição demográfica, marcada pela diminuição da natalidade e reforço da mobilidade, originou famílias menos numerosas e mais expostas à instabilidade dos ritmos urbanos. As estratégias tradicionais de coabitação multigeracional sofrem reconfiguração, especialmente entre os migrantes internos. Os recenseamentos indicam um ligeiro aumento de lares monoparentais e de arranjos habitacionais partilhados, como pensões femininas para trabalhadoras solteiras em Lisboa nos anos 1920 – evidenciando novos modos de gerir a vida privada e a autonomia.2. Trabalho feminino e autonomia económica
Fundamental nestas transformações é também o crescimento do trabalho feminino, tanto nas fábricas têxteis e de tabaco (exemplo paradigmático: a Fábrica de Tabacos da Mãe d’Água, com centenas de operárias) como nos serviços – de telefonistas a enfermeiras e professoras primárias, profissões que ganham especial prestígio entre as classes médias. A autonomia material – ainda que relativa e disparidade consoante a classe social – permite a renegociação de papéis domésticos e o surgimento de figuras femininas mais presentes no espaço público, desde a estudante universitária à artista ou funcionária administrativa.3. Movimentos de emancipação e debate público
O debate em torno da emancipação feminina, potenciado pelos ventos republicanos e inspirados no internacionalismo, atinge novas expressões. O acesso das mulheres à instrução, à propriedade e, ainda que limitado, ao sufrágio, foi tema candente em jornais como o Diário de Lisboa e em associações como o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. O Código Civil de 1910, apesar de conter entraves, reconhece pela primeira vez alguns direitos às mulheres casadas, e a literatura de autoras como Ana de Castro Osório impulsiona discussões em torno do direito ao corpo e à cidadania, ainda que as resistências institucionais e sociais fossem notórias.---
IV. Crise das Certezas: Círculo Intelectual, Modernismo e Novas Psicologias
1. Ciência e questionamento da ordem anterior
No campo do saber científico, as revoluções da física (relatividade, mecânica quântica) e da biologia (psicanálise, genética) abalam as certezas herdadas do positivismo do século XIX. O espaço público intelectual é invadido por metáforas da incerteza e da dúvida, em parte disseminadas pelos jornais e pelas tertúlias académicas (um exemplo: as discussões da “Geração de Orpheu”, círculo literário liderado por Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro). Textos como o Manifesto Anti-Dantas expõem a inquietação face a paradigmas oficiais e à imposição de tradições estéticas e morais.2. Introspeção, psicologia e psicanálise
As ideias de Freud e a moda da introspeção atingem Portugal sobretudo pelas elites urbanas e culturas de salão. Obras literárias (caso de Mensagem ou de A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro) refletem o fascínio pelo inconsciente, pela fragmentação da identidade e por uma sexualidade mais fluida, desafiando tabus e código moral vigente. O discurso clínico mistura-se ao literário, e termos como “neurastenia” e “complexo” entram no léxico quotidiano dos jornais e das crónicas femininas.3. Modernismo e expressão artística
Na literatura, nas artes plásticas e na arquitetura, o modernismo português assume tons próprios. Edifícios como a Garagem Liz ou a Estação do Rossio demonstram inovação formal e funcional. Pintores como Amadeo de Souza-Cardoso experimentam com cor, fragmentação e abstração, antecipando tendências europeias (Cubismo, Futurismo), enquanto as revistas Orpheu e Presença catalisam polêmicas estéticas e manifestos de rutura, denunciando uma “crise das velhas formas” em prol de novas linguagens que espelham o tumulto da época.---
V. Resistências, Persistências e Contra-Movimentos
Apesar do vigor das mutações modernizadoras, subsiste toda uma constelação de resistências: revivalismos religiosos, exaltações nacionalistas – como os discursos do Integralismo Lusitano – e apelos a valores “morais” ameaçados pela cidade e pelo cosmopolitismo. Assiste-se à promulgação de leis laborais que procuram restabelecer limites à jornada ou proibir trabalhos noturnos femininos, e a políticas de promoção da família tradicional, muitas vezes enraizadas em discursos da Igreja ou do Estado Novo em formação. Os jornais da época ecoam também o receio da “decadência” perante a explosão dos modos de vida modernos, ora demonizando a “mulher-masculina”, ora defendendo a necessidade de um regresso às origens rurais e à simplicidade.---
VI. Estudos de Caso: Fragmentos de uma Realidade em Mutação
1. Transformação quotidiana em Paris e Lisboa
Enquanto Paris se destaca internacionalmente pela vida dos seus boulevards, cafés literários e cinemas – temas recorrentes em crónicas de Ramalho Ortigão – Lisboa, entre 1910 e 1930, vivencia a electrificação dos transportes públicos, a inauguração dos grandes cinemas como o Politeama e o Coliseu dos Recreios, e a multiplicação de cafés nas Avenidas Novas. Os anúncios de viagens de carro elétrico ao Estoril, por exemplo, ilustram como a mobilidade e o lazer começaram a fundir-se no quotidiano citadino português, promovendo o contacto entre diferentes estratos sociais e a massificação de gostos.2. O papel feminino em mudança: o caso de Lisboa
O início da República em 1910 favoreceu um ambiente – ainda que ambíguo – de modernização para as mulheres, principalmente na capital. Testemunhos recolhidos em revistas femininas da época, bem como dados do recenseamento, documentam o aumento de mulheres em setores como o ensino e os serviços hospitalares. A presença de professoras primárias e enfermeiras é particularmente assinalada nas atas parlamentares de debates sobre o orçamento da educação. As mobilizações do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, as manifestações públicas e os textos de Maria Clara Correia Alves e Adelaide Cabete, demonstram o entrelaçamento entre luta política, emprego e cultura urbana.3. A publicidade como espelho dos valores sociais
Num cartaz publicitário lançado pelo Banho de S. João, ilustrado na revista Ilustração de 1928, observa-se a glorificação do “corpo saudável” e do “verão na praia”, símbolos de bem-estar e modernidade. Este exemplo ilustra uma nova moralidade do lazer, centrada no culto do corpo e no acesso democrático ao tempo livre, sugerindo a metamorfose não só dos padrões de consumo, mas dos próprios ideais colectivos – a exaltação de juventude, saúde e felicidade acessível a todos.---
VII. Metodologia: Perspetivas para o Estudo das Mutações
A hermenêutica histórica destas mutações apoia-se numa combinação de história cultural, micro-história e análise de fontes visuais e quantitativas. O cruzamento entre fontes estatísticas (recenseamentos populacionais, estatísticas laborais), jornalísticas (crónicas, ensaios, cartas de leitores), e visuais (fotografia urbana, propaganda) permite traçar tanto tendências macro quanto experiências individuais. Porém, enfrentam-se desafios de representatividade (maior abundância de registos das elites), de linguagem anacrónica ou de parcialidade das fontes (publicidade com viés aspiracional).A validação histórica exige triangulação, comparação entre diferentes cidades e classes, e a interrogação crítica das próprias categorias de análise, nomeadamente quanto à dicotomia cidade-campo e à definição de "modernidade".
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VIII. Limitações, Contra-argumentos e Persistências
Deve, contudo, evitar-se o enviesamento da ruptura. Em grande parte do território português, sobretudo fora dos grandes centros, as mutações processaram-se a ritmo lento. Os laços comunitários, a prevalência do patriarcalismo rural e a persistência de práticas religiosas e de ajuda mútua atestam a coexistência de vários tempos sociais. Mudanças notáveis no comportamento podem não corresponder, de imediato, a transformações profundas da mentalidade – como sugerem estudos de micro-história regional e relatos memorialistas (veja-se Aquilino Ribeiro ou Alves Redol).A par disso, as clivagens de classe, de género e de geração tornaram desigual o acesso à cultura de massas e aos frutos do progresso técnico. Reações conservadoras não devem ser minimizadas, pois modelaram fortemente os caminhos de regulação dos novos modos de vida.
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Conclusão
As mutações sociais e culturais das primeiras décadas do século XX, moldadas pelo avanço urbano, pela inovação tecnológica, pela difusão da cultura de massas e pelas novas ideias sobre ciência e indivíduo, alteraram de modo duradouro os modos de viver, pensar e sentir na Europa e em Portugal – mas fizeram-no de modos e ritmos diferenciados. O nascimento de padrões urbanos de sociabilidade, a consolidação do lazer e do consumo, a renegociação dos papéis de género e o desafio ao saber “seguro” abalaram as fundações de uma ordem secular, ainda que sempre acompanhados de resistências locais e permanências da tradição.Ao perscrutar as evidências, percebe-se que muitas das questões emergentes – a cultura de massas, o papel da mulher, as ambiguidades do progresso – antecipam debates que marcam o Portugal contemporâneo. Investigações futuras poderão aprofundar a análise das continuidades e rupturas, apostando em escalas regionais, em perspetivas de género e em novas fontes, como as coleções de imagens e de objetos que ilustram ora o fascínio, ora o sobressalto perante a modernidade.
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Nota sobre fontes e bibliografia (exemplos ilustrativos, a serem aprofundados em trabalho académico):
- Recenseamentos nacionais: Instituto Nacional de Estatística (INE). - Jornais e revistas: “O Século”, “A Ilustração”, “Diário de Notícias”, “O Gorro”. - Obras literárias: Raul Brandão, “Os Pobres”; Ana de Castro Osório, “A Mulher e a Pátria”; Mário de Sá-Carneiro, “A Confissão de Lúcio”. - Estudos de referência: Irene Pimentel, “História das Mulheres em Portugal”; Irene Flunser Pimentel, “A cada um o seu lugar. O Estado Novo e as mulheres”; Maria de Fátima Bonifácio, “Lisboa no Século XIX”.##### (Imagens, mapas e tabelas sugeridos para anexos: mapa demográfico de Lisboa 1900-1930; cartaz publicitário de banhos de mar; quadro comparativo de presença feminina no ensino primário 1910-1930; fotografia de operárias na Fábrica de Tabacos.)
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