Redação de História

Lénine a Estaline: transição e contradições da Revolução Russa

approveEste trabalho foi verificado pelo nosso professor: 21.01.2026 às 13:42

Tipo de tarefa: Redação de História

Resumo:

Explore a transição entre Lenine e Estaline na Revolução Russa, entendendo as contradições e impactos que moldaram a história soviética e mundial.

De Lenine a Estaline: As Ilusões e os Desígnios da Revolução Russa

Introdução

O início do século XX ficou marcado por convulsões políticas de enormes proporções, tendo a Rússia czarista como palco de uma das mais profundas revoluções da história contemporânea. O colosso agrário e atrasado do Império Russo, alicerçado numa monarquia autocrática e numa sociedade vigorosamente hierarquizada, cedeu perante o abalo sísmico da Revolução de 1917. Com este acontecimento, surgiu não apenas o primeiro Estado socialista do mundo, mas também uma experiência política e social cujo impacto se prolongaria muito para além das suas fronteiras.

A compreensão da transição entre o governo de Vladimir Lenine e o de José Estaline é fundamental para os estudantes portugueses interessados na história contemporânea e nos efeitos concretos das ideologias políticas. Ao analisar estas duas personalidades — o idealista revolucionário e o construtor implacável do poder soviético —, percebe-se como o sonho de emancipação social pode transformar-se numa realidade inesperada, repleta de contradições. Este ensaio propõe-se dissecar as etapas marcantes dos governos de Lenine e Estaline, comparando estilos, visões e impactos, numa perspetiva crítica e informada pelo contexto português, onde as memórias ainda vivas do PREC e das discussões em torno do comunismo tornam este tema particularmente relevante.

O Contexto Pré-Revolucionário: Esplendor e Miséria do Império Russo

Para compreender a emergência do fenómeno bolchevique, é necessário mergulhar na complexidade social e política da Rússia finissecular. Numa obra como “Rússia nas Ruínas” de António José Saraiva, estudioso português, é sublinhado o atraso e a rigidez de uma ordem marcada por glebas rurais, aristocracia empedernida, servos semi-emancipados e uma pequena burguesia citadina, jovens estudantes e operários industriais que despontavam em Moscovo e Petrogrado.

A repressão czarista impede a modernização política e agrava os conflitos sociais. O socialismo — alimentado pelas obras de Marx, traduzidas clandestinamente e lidas em seminários universitários ou nas discussões em cafés — converte-se no catalisador das esperanças de reforma. Ao contrário das experiências ocidentais, onde se esperava uma transição progressiva, a revolução russa guiou-se desde cedo pela urgência: fome, analfabetismo, louras e severas derrotas militares agravaram o desespero popular, alimentando a multiplicidade de movimentos subversivos, dos populistas aos anarquistas até à emergência dos marxistas-leninistas.

Lenine: O Idealista da Revolução

Lenine, nascido Ulianov, cresceu num ambiente envolto pela repressão policial e pela inquietação intelectual. A execução do seu irmão Alexandre, envolvido num atentado fracassado ao czar Alexandre III, impulsionou-o a mergulhar nos estudos revolucionários. A leitura de obras como “O Capital” transformou-se em obsessão e na busca de soluções adequadas à realidade russa, instando-o à publicação de panfletos e artigos e à organização de círculos clandestinos.

Como referiu Vítor Serge na sua obra “O Ano I da Revolução Russa” (publicada em 1928 e posteriormente recebida em Portugal com grande interesse durante o pós-25 de Abril), Lenine distingue-se pelo rigor analítico. A sua passagem pela Sibéria e, mais tarde, pelas cidades europeias, fortaleceu a sua rede de contactos entre emigrados russos, enquanto fundava o Partido Operário Social-Democrata Russo e preparava o regresso ao seu país. A sua ideia-chave, adaptando criativamente Marx às condições russas, era que uma vanguarda organizada do proletariado, os bolcheviques, podia assumir o controlo do processo revolucionário.

O Triunfo e os Limites de Lenine

A Revolução de Outubro de 1917 não surge num vácuo: é o clímax de anos de desgaste militar, social e político. Lenine, com slogans como “Paz, Pão e Terra”, galvanizou operários, soldados e camponeses. A tomada do Palácio de Inverno foi amplificada pela propaganda, enquanto o poder bolchevique consolidava-se em meio à brutalidade da guerra civil e à oposição dos chamados “brancos”, aliados às potências estrangeiras.

No governo, Lenine foi pragmático: instaurou o Comunismo de Guerra, que implicou requisições forçadas, racionamento, repressão a dissidências e centralização do controlo económico. Mas cedo percebeu as limitações dessas medidas: a economia afundava-se, o campesinato rebelava-se.

A Nova Política Económica (NEP), estabelecida em 1921, constituiu um recuo tático fundamental. Inspirando-se em experiências históricas, como as reformas pombalinas em Portugal, que enfrentaram dificuldades na modernização do campo, Lenine permitiu uma reintrodução vigiada das trocas privadas, pequenas empresas e alguma liberdade comercial rural. Foi o reconhecimento de que a utopia socialista, para se manter, necessitava de concessões realistas.

No entanto, o seu governo nunca perdeu de vista o controlo do partido, e foi sob Lenine que se instalaram os fundamentos das estruturas repressivas que Estaline herdaria: o partido-Estado, a Cheka (polícia política), a censura e a eliminação das oposições internas. A saúde debilitada de Lenine, vítima de múltiplos enfartes, precipitou uma luta pela sucessão, cuja relevância foi reconhecida por historiadores como Álvaro Garrido em “Ditadura e Modernidade”.

Estaline: Da Ousadia Revolucionária ao Estado Totalitário

José Estaline (nascido Iossif Djugashvili), georgiano de origem modesta, destacou-se pela habilidade política, pragmatismo calculista e capacidade de sobreviver às intrigas partidárias. A sua ascensão, lenta mas inexorável, ficou marcada pela obtenção de cargos decisivos e pelo domínio sobre o aparelho organizacional do partido.

Após a morte de Lenine, e apesar de advertências do próprio líder moribundo sobre o carácter “brutal” do seu sucessor, Estaline venceu as rivalidades, eliminando adversários como Trotsky e consolidando um poder unipessoal. Isto ficou patente nas “purges” dos anos 30, onde muitos antigos revolucionários foram executados ou enviados para os Gulags — campos de trabalho forçado, retratados em memórias como “Um dia na vida de Ivan Deníssovitch” de Aleksandr Soljenítsin (conhecido e lido em Portugal durante a vaga antitotalitária dos anos 70).

A economia passou a ser comandada através dos Planos Quinquenais, que orientavam a industrialização acelerada: minas, hidroelétricas, fábricas, cidades inteiras surgiram como monumentos à engenharia e ao sacrifício humano. O preço humano deste progresso, contudo, foi catastrófico: milhões de camponeses morreram à fome (nomeadamente durante o Holodomor na Ucrânia), coletivização forçada levou ao extermínio de aldeias, e o terror tornou-se quotidiano.

Politicamente, Estaline criou um culto em torno da sua figura, controlou a produção artística e literária através do realismo socialista (basta comparar poetas como Maiakovski com Fernando Pessoa, ambos sofrendo restrições, embora em contextos diferentes), e transformou a URSS numa sociedade de vigilância, delação e medo permanente.

Na arena internacional, Estaline soube, no entanto, capitalizar a vitória soviética sobre o nazismo: a Batalha de Estalinegrado passou a ser também símbolo da resistência, enaltecida em reportagens internacionais, como as do Diário de Notícias de 1945.

Comparação dos Modelos: Ideais, Métodos e Resultados

Lenine e Estaline partilham a ambição de transformar radicalmente a sociedade russa, mas divergem no modo, intensidade e consequências dessa ambição. Lenine procurava uma transição controlada, preferindo (quando possível) a persuasão à repressão. Foi intelectual e teórico, ainda que não recuasse perante a violência revolucionária. Estaline, mais pragmático e desconfiado, fez da violência um método rotineiro, promovendo a obediência cega em detrimento do debate.

Economicamente, as medidas de Lenine foram hesitantes, misturando utopia e pragmatismo. Já Estaline optou pela planificação absoluta sem concessões, obtendo resultados industriais mas destruindo o tecido agrícola e humano. Socialmente, ambos perseguiram a educação de massas (como atesta o número assinalável de alfabetizados pós-1920, à semelhança do impacto das reformas educativas portuguesas do século XX), mas apenas sob Estaline se desenvolveu uma verdadeira sociedade de controlo total.

O legado histórico é, portanto, ambivalente. Se Lenine permanece associado à ideia de “possibilidade alternativa” de organização social, Estaline ficou ligado ao terror, repressão e perversão dos ideais revolucionários. Ainda assim, muitos em Portugal, especialmente durante as décadas de 40 a 70, viam na URSS ora um modelo de resistência ao fascismo, ora uma ameaça às liberdades democráticas.

Conclusão

A passagem de Lenine para Estaline ilustra a fragilidade das revoluções e os riscos inerentes à concentração absoluta de poder. Num país que, como Portugal, viveu na pele tanto regimes autoritários quanto sonhos de renovação social, a análise destes dois líderes russos oferece clarificações necessárias sobre o modo como as ideias se transformam e, por vezes, se pervertem face à realidade.

Em jeito de balanço, importa reconhecer que a fundação da União Soviética foi acto coletivo, mas o seu destino ficou fortemente marcado pelas personalidades dos seus arquitetos. A distância entre a esperança leninista e a rigidez estalinista ensina-nos sobre os perigos do dogmatismo e do culto da personalidade, temas que continuam a valer reflexão crítica, seja em debates académicos, seja no discernimento cívico sobre os caminhos da transformação social.

Para futuros estudos, sugere-se um olhar comparado entre outras experiências comunistas (como a chinesa) ou uma análise mais detalhada do impacto cultural da sovietização, nomeadamente na literatura, arte e educação, tanto na Rússia como nos países satélites e em Portugal durante o PREC. Só assim se poderá perceber, em toda a sua complexidade, o destino das grandes utopias do século XX.

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Fontes Consultadas

- Saraiva, António José. “Rússia nas Ruínas”, Lisboa, Livros Horizonte. - Serge, Vítor. “O Ano I da Revolução Russa”, Lisboa: Antígona. - Garrido, Álvaro. “Ditadura e Modernidade”, Coimbra: Almedina. - Soljenítsin, Aleksandr. “Um dia na vida de Ivan Deníssovitch”, Porto: Relógio D’Água. - Artigos vários do Diário de Notícias (1945-1975). - Testemunhos de militantes portugueses sobre o comunismo, in “Memórias do PREC”, Fundação Mário Soares. - Documentos históricos traduzidos: “Teses de Abril”, “Plano Quinquenal 1928-1932”.

Perguntas de exemplo

As respostas foram preparadas pelo nosso professor

Quais foram as principais contradições na transição de Lenine a Estaline?

A transição de Lenine a Estaline envolveu divergências entre o idealismo revolucionário e a imposição autoritária do poder soviético, refletindo mudanças profundas no rumo da Revolução Russa.

Como era o contexto do Império Russo antes da Revolução Russa, segundo o artigo Lénine a Estaline?

O Império Russo era marcado pelo atraso social e político, uma sociedade fortemente hierarquizada e uma repressão czarista que bloqueava reformas, criando um cenário explosivo para a revolução.

O que distingue Lenine de Estaline na Revolução Russa, de acordo com a redação?

Lenine destacou-se pelo idealismo e análise crítica, enquanto Estaline consolidou um governo centralizado e autoritário, alterando os ideais iniciais da revolução.

Quais causas internas contribuíram para a Revolução Russa, como abordado em Lénine a Estaline?

A crise social agravada pela fome, analfabetismo, derrotas militares e repressão czarista incentivou o crescimento de movimentos revolucionários e o desejo de mudança.

Que papel teve Lenine na vitória bolchevique na Revolução Russa segundo o artigo?

Lenine articulou as massas com slogans como "Paz, Pão e Terra" e liderou os bolcheviques, consolidando o poder após a tomada do Palácio de Inverno e a vitória na guerra civil.

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