Redação de História

Entrevista imaginada a D. João V: monarquia e poder no século XVIII

approveEste trabalho foi verificado pelo nosso professor: 23.01.2026 às 16:17

Tipo de tarefa: Redação de História

Resumo:

Explore a monarquia e o poder no século XVIII com uma entrevista imaginada a D. João V, aprendendo sobre política, economia e cultura em Portugal. 📚

A Gazeta: Entrevista Imaginada a D. João V e o Retrato do Poder no Século XVIII

Introdução

O século XVIII português foi marcado por um dos reinados mais longos e faustosos da história do país: o de D. João V, vulgarmente conhecido como “O Magnânimo”. Reinando de 1706 a 1750, D. João V guiou Portugal através de um período de intensa transformação social, económica e política, em que, à sombra do ouro brasileiro, se procurou reforçar a autoridade régia e elevar o prestígio da coroa a níveis inéditos. Numa tentativa de tornar mais próximo e acessível o retrato deste monarca, imagine-se uma entrevista fictícia – um género caro à tradição escolar portuguesa em exercícios de criatividade - publicada n’A Gazeta, o periódico da época. Tal entrevista permite, não só revisitar episódios do reinado, como compreender as relações entre poder, religião, corte e mecenato cultural que caracterizaram este tempo.

Desta forma, este ensaio propõe-se a analisar a visão de governo do próprio D. João V, tal como poderia ser desvendada numa conversa com o monarca, explorando as várias dimensões do seu contexto: política, simbologia, religião, economia, e as inevitáveis contradições que emergem de um poder aparentemente ilimitado. Através desta abordagem, pretende-se identificar em D. João V não só o modelo do absolutismo esclarecido, legitimado por uma noção de autoridade divina, mas também o início de uma adaptação às novas realidades sociais e económicas do século XVIII português.

I. O cenário do poder: O Palácio de Mafra e a Corte Real

Poucas edificações conseguiram captar, como o Palácio-Convento de Mafra, o espírito de um reinado centrado na magnificência e no simbolismo do poder régio. Inspirado em projetos grandiosos observados em Itália e França, este monumento nasce como gesto de cumprimento de um voto religioso – pela sucessão régia desejada – mas transforma-se, rapidamente, num epicentro político e cultural. O seu traço imponente, capaz de rivalizar com palácios notáveis do continente, desde logo ambicionava traduzir para a paisagem nacional a grandeza sonhada para a coroa portuguesa.

Ao circular pelas vastas galerias e salas resplandecentes de Mafra, perceber-se-ia que não era apenas a arquitetura ou o espólio artístico que impressionavam. As cerimónias públicas, os banquetes, os concertos na Basílica e as audiências cuja pompa era meticulosamente disposta, serviam para criar uma atmosfera de respeito e admiração em torno do rei. Aqui, cada detalhe tinha sentido: desde os uniformes dos criados de libré azul e prata, às sinfonias executadas nos órgãos gémeos, até às refeições servidas sob dourados lustres.

O ambiente da corte organizava-se num delicado xadrez social e político. O clero, omnipresente na cerimónia, reflectia e reforçava o papel central da Igreja na legitimação do rei. A nobreza, base tradicional do trono, disputava lugares e títulos, influenciando decisões através do acesso privilegiado a audiências e favores. Mas o século XVIII via já emergir uma nova camada: a burguesia, enriquecida com o comércio ultramarino e cada vez mais presente em cargos administrativos, introduzindo uma nota de pragmatismo no seio do poder tradicional. Esta complexidade social traduziu-se em rotinas semanais densas – audiências a ministros, súbditos fidalgos e corpo diplomático – que D. João V equilibrava com uma certa teatralidade régia, revelando tanto desejo de centralização como de aparente proximidade aos governados.

II. Reflexões sobre o poder de governar: Perspetivas de D. João V

A entrevista imaginária com D. João V, publicada n’A Gazeta, permitiria discernir um pensamento político marcado pelo absolutismo, entendido aqui como o exercício solitário e incontestado do poder executivo e legislativo. Seja como herança da tradição joanina, seja como reação ao modelo representativo das Cortes medievais, o rei via-se como ponto focal de toda a máquina do Estado: “No fim do dia, a última palavra é sempre minha”, poderia confidenciar, não sem admitir que a consulta a conselheiros era útil para ponderar alternativas. No entanto, o monarca insistiria na importância de uma “ideia fixa” – a clareza de decisão – frequentemente invocada na cultura política portuguesa (“Rei fraco faz reino fraco”, como ecoaria Almeida Garrett num século posterior), equilibrada pela capacidade de escutar razões contrárias, “sem nunca perder de vista o bem maior do reino”.

A religião ocupava um papel determinante na justificação e exercício do poder real. D. João V não se cansava de realçar que governava por delegação divina, como “vigário de Deus em Portugal”. A correspondência com o papado, as embaixadas sumptuosas enviadas a Roma e a própria construção de Mafra – nascida de um voto religioso – ilustravam esse enraizamento do poder na autoridade transcendente. A ligação entre trono e altar tornava-se garantia de ordem social e fonte de prestígio externo, numa altura de guerras religiosas e disputas entre potências católicas e protestantes na Europa.

Por fim, o rei não ignorava o papel decisivo das riquezas coloniais. O ouro do Brasil inundava Lisboa e permitia não só financiar monumentos, festas e um exército moderno, como também reforçar a autonomia do monarca face a pressões internas. O esplendor visível nos diademas, tapeçarias e colecções bibliográficas era, afinal, sustentado pelos fluxos vindos do ultramar, ainda que este “maná dourado” não estivesse isento de problemas: dependência exterior, corrupção e desigualdade, que germinariam tensões futuras.

III. Estratégias políticas e simbólicas do reinado de D. João V

A opção firme de D. João V em não restaurar a União das Cortes – uma assembleia representativa com raízes medievais – marca uma viragem clara para a centralização do poder. Se, em outros tempos, a nobreza exigia voz regular nas grandes decisões do Estado, agora essas consultas surgiam apenas quando o rei assim o consentia. Justificado sob a necessidade de rapidez e eficácia (“o bem do reino não pode esperar a discórdia dos homens”, poderia sintetizar o rei), este afastamento acelerou o modelo absolutista e fez crescer uma burocracia leal diretamente ao trono.

Este modelo não era, no entanto, inédito na Europa. Olhando para o reinado de Luís XIV de França, o “Rei-Sol”, D. João V reconhecia, à sua escala, o valor do espectáculo e da magnificência régia como arma política. Importou costumes, modas, e formas do cerimonial francês, mas imprimiu-lhes cariz português: os jantares do Palácio de Mafra, os passeios régios a Sintra e as festas religiosas desenhavam um quadro ao mesmo tempo europeu e distintamente nacional. Eça de Queirós, no século XIX, ironizaria sobre esta admiração cega pela França, mas é inegável o impulso modernizador trazido por tais influências.

O boato – alimentado por gazetas e gravuras – era controlado pelo rigor cerimonial. Os banquetes, celebrados em mesas fartas e vistosas, e os cortejos públicos eram ocasiões para reforçar a autoridade moral do rei perante a população. A corte era encenada como um palco perpétuo, onde cada actor tinha o seu papel: ministros, bispos, damas, músicos. A ostentação não era vaidade apenas, mas um instrumento deliberado de reforço da ordem do Estado.

IV. Desafios e contradições do reinado

Nenhum poder é absoluto sem fissuras, e a entrevista fictícia, se ousasse insistir em temas mais incómodos, evidenciaria as limitações do sistema. Por um lado, a centralização simplificava a gestão, mas isolava o monarca, tornando-o por vezes susceptível às intrigas palacianas ou à lentidão dos canais informais de escuta social. Por outro lado, as reformas económicas e administrativas exigiam o contributo de quadros vindos da burguesia, que não partilhavam sempre a mentalidade de sangue azul.

A circulação de informações era, também, um desafio: a modernização de Portugal esbarrava na dificuldade de acesso às invenções e ideias de ponta que surgiam noutros países – como a fiandeira de Hargreaves, cuja notícia tardava em chegar. O atraso encurtava a margem de manobra de um país que ambicionava, com o rei, rivalizar com os “gigantes” europeus. Por esta razão, o controlo apertado da imprensa e das “folhas políticas” destinava-se tanto a proteger a imagem do rei como a preservar a ordem pública.

Por fim, episódios como o roubo da coche francesa, ocorrido em Tarouca, serviam de lembrete das fragilidades internas do reino. Um acontecimento aparentemente trivial podia atingir proporções nacionais, transformar-se em símbolo de desleixo ou vulnerabilidade e abalar momentaneamente o prestígio da Casa Real. A resposta a tais eventos – fosse pelo castigo exemplar dos culpados ou pela reforma do sistema de proteção de bens régios – revelava como o poder de D. João V era tanto uma força mobilizadora como um palco de tensões insolúveis.

Conclusão

A entrevista fictícia com D. João V, publicada n’A Gazeta, permite-nos (re)conhecer os grandes traços do seu reinado: o apego à autoridade divina, a sedução do absolutismo, a ligação entre riqueza colonial e manutenção do poder, e a teatralização do governo através de cerimónias e símbolos. O Palácio-Convento de Mafra ergue-se, assim, como espelho cristalino desta ideia de poder: vertical, solene e, ao mesmo tempo, vulnerável às mudanças do tempo.

Compreender a perspetiva de D. João V ajuda a perceber a transição da política portuguesa para modelos mais pragmáticos e, em certa medida, mais abertos à crítica e à partilha de responsabilidades, que só floresceriam plenamente sob a influência do Marquês de Pombal, no reinado seguinte. O estudo deste período não é, por isso, mera curiosidade: é indispensável para interpretar os desafios do presente e compreender as raízes profundas do Estado moderno português.

Por último, a literariedade da “entrevista” não diminui o seu valor pedagógico. Ao articular episódios e ideias através desta simulação criativa, os estudantes ganham uma visão mais humana e menos distante das figuras de outros séculos, percebem o papel do simbolismo e da encenação no exercício do poder e compreendem melhor as linhas de continuidade e mudança que caracterizam o nosso passado político e social.

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*Palavras finais*: Estudar D. João V através desta lente é um convite à reflexão: quantos dos dilemas do passado ecoam, ainda hoje, nos corredores do poder em Portugal?

Perguntas de exemplo

As respostas foram preparadas pelo nosso professor

Qual foi o papel de D. João V na monarquia portuguesa no século XVIII?

D. João V reforçou a autoridade régia e elevou o prestígio da coroa portuguesa. O seu reinado foi marcado por transformações sociais, económicas e políticas impulsionadas pelo ouro do Brasil.

Como a entrevista imaginada a D. João V ajuda a entender o poder no século XVIII?

A entrevista fictícia permite compreender as relações entre poder, religião, corte e mecenato cultural. Também evidencia as contradições e adaptações do absolutismo régio daquela época.

Que importância teve o Palácio de Mafra no reinado de D. João V?

O Palácio de Mafra simboliza a magnificência e centralidade do poder régio. Serviu como epicentro político e cultural, reforçando o prestígio do monarca e da sua corte.

Quem compunha a corte de D. João V segundo a entrevista imaginada?

A corte era composta principalmente por clero, nobreza e uma nova burguesia. Esta mistura espelhava a complexidade social e política do século XVIII em Portugal.

Que modelo de governo revela a visão de D. João V na entrevista imaginada?

D. João V defendia o absolutismo, exercendo poder executivo e legislativo de forma incontestada. Esta postura refletia uma tradição monárquica centralizadora e legitimada pela autoridade divina.

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