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Resumo do Sermão de Santo António aos Peixes: Análise do Polvo

approveEste trabalho foi verificado pelo nosso professor: 15.01.2026 às 18:00

Tipo de tarefa: Redação

Resumo do Sermão de Santo António aos Peixes: Análise do Polvo

Resumo:

Vieira usa o polvo como alegoria da hipocrisia e traição humana, criticando quem, sob falsa humildade, pratica o mal de forma dissimulada.

*Sermão de Santo António aos Peixes* – Polvo (Resumo)

I. Introdução

O *Sermão de Santo António aos Peixes*, escrito e pronunciado pelo Padre António Vieira em 1654, é uma das grandes obras-primas da literatura barroca portuguesa e europeia. Neste sermão, Vieira, figura central do movimento barroco em Portugal e missionário jesuíta de projeção internacional, utiliza a metáfora dos peixes para tecer uma crítica feroz não apenas aos vícios coloniais, mas à condição humana em geral. A pregação é dirigida, simbolicamente, aos peixes, mas o alvo real são os homens—os ouvintes do seu tempo e de todos os tempos—acusados de hipocrisia, traição e outros males morais.

No capítulo 5 do sermão, Vieira aprofunda a crítica através da análise alegórica de diferentes peixes, cada um representando diferentes defeitos humanos. Destaca-se aqui o episódio do Polvo, o último peixe a ser examinado, que a todos ultrapassa pelo seu modo de dissimulação, traição e hipocrisia. A descrição do polvo serve como veículo para fazer uma crítica direta ao comportamento humano, sobretudo àqueles que, com aparência de humildade e mansidão, escondem intenções perversas e praticam o mal pela traição.

Neste ensaio, irei analisar em detalhe o episódio do Polvo, sublinhando o modo como Vieira utiliza a sua aparência e comportamentos para construir uma alegoria poderosa sobre a hipocrisia e a traição entre os homens, apoiando-me em referências textuais, estratégias retóricas e o contexto cultural e religioso do século XVII, em Portugal. Antes de se entrar na análise propriamente dita, é fundamental perceber o papel dos sermões nessa época: eram instrumentos de ensino, de censura e de reforma, desempenhando nas igrejas e nos púlpitos uma função comparável à dos grandes tratados ético-morais. O discurso alegórico demorava-se na utilização de símbolos e metáforas, permitindo a Vieira criticar de forma eficaz e velada os poderes instituídos e a moral do seu tempo. Por isso, ao abordar o episódio do Polvo, é imprescindível “ler nas entrelinhas”, percebendo como a linguagem figurada serve uma intenção moral bem clara.

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II. Desenvolvimento

A. Caracterização inicial do polvo e figuras de estilo

Vieira inicia a descrição do polvo salientando a sua aparência aparentemente inofensiva e até devota. No texto, “com aquele seu capelo na cabeça,” (l. 771), o polvo é comparado a um monge ou frade, usando o capelo, e ainda a uma estrela. Através desta comparação, Vieira faz uso frequente da palavra “parece” — “parece monge”, “parece estrela” — construindo uma falsa imagem de santidade e pureza, quando na verdade existe uma camuflagem do verdadeiro caráter do animal. Esta insistência na aparência é realçada pela anáfora (“parece... parece...”) e pela enumeração, criando ritmo e sublinhando a insistência na falsidade do aspeto.

Ao dizer que o polvo é “todo brandura e mansidão, porque não tem osso nem espinha” (l. 772), Vieira utiliza ainda a adjetivação para reforçar a ideia de uma falsa humildade e passividade. A ausência de “osso nem espinha” remete para um carácter supostamente flexível, pacífico, mas o leitor sente desde já a suspeita de algo sub-reptício. Aqui, a construção estilística serve para aumentar o impacto da análise moral: perante uma audiência religiosa e habituada a distinguir entre aparência e essência, este início prepara a denúncia da hipocrisia.

Importante é ainda o uso do argumento de autoridade: Vieira cita S. Basílio Magno e S. Ambrósio, figuras da patrística cristã, para afirmar que o polvo pratica “hipocrisia santa”. Estas remissões servem para legitimar a crítica, apresentando-a como alinhada com a doutrina da Igreja, o que fortalece o ethos do pregador e dá robustez à condenação.

B. Análise das características do polvo e da traição

O elemento mais sinistro do polvo reside na sua capacidade camaleónica de enganar, alterando a cor para se disfarçar e capturar as presas. Vieira escreve: “Traição do polvo é pintar-se das mesmas cores das pedras e da água para que não se conheça” (l. 776). Ao utilizar a expressão “pintar-se das mesmas cores”, o autor revela a natureza pérfida do animal: não se disfarça apenas para se proteger, mas para atacar — uma diferença moral fulcral entre defesa legítima e embuste criminoso. O efeito da enumeração anafórica (“se está... se está... se está...”) reforça, através de repetição, a ideia de mudança constante e de um perigo invisível.

Vieira enriquece o argumento recorrendo à comparação com outras criaturas da tradição clássica: “O camaleão muda de cor por se defender, o proteu muda de figura por se defender; só o polvo muda de cor para matar.” Ao fazer este contraste, o orador distingue entre a dissimulação natural, que assegura a sobrevivência, e a dissimulação maliciosa e ofensiva, que tem por único fim a traição. Aqui, a enumeração serve não apenas como comparação, mas também como condenação: mudar por defesa pode ser compreensível, mas mudar para enganar é abjeto.

A conclusão desta parte é clara: o polvo encarna o traidor supremo, aquele que não só engana, mas que faz do engano a sua arma mais eficaz. A mensagem é transposta para o universo humano sem ambiguidades: tal como o polvo, há homens que cultivam a aparência de virtude e operam traição, tornando-se um perigo para a comunidade.

C. Paralelismo e comparação com Judas Iscariotes

A página mais dramática deste episódio surge quando Vieira, em tom fortemente retórico, pergunta: “Fizera mais Judas?” (l. 784). Trata-se de uma pergunta retórica, típica do discurso barroco, que obriga o ouvinte a interiorizar a crítica e a compará-la com um dos exemplos máximos de traição na tradição cristã. Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Cristo com um beijo e o entregou aos carrascos, é paradigma universal da traição — facilmente reconhecido pelo auditório e pelos leitores da época.

Vieira estabelece então um paralelismo engenhoso: Judas abraçou Cristo e outros (os guardas) prenderam-no; contudo, o polvo, “abraça e prende a presa ele mesmo”. O polvo, “com os seus braços, que são como cordas”, não só dá o “abraço”, mas concretiza o crime. Este recurso de trocadilho, onde os “braços” do polvo passam a ser “cordas” (instrumentos de prisão metafórica e literal), demonstra o engenho retórico de Vieira. A dupla leitura é clara: os atos de ternura, aproximação ou humildade são perversamente transformados em instrumentos de traição por quem domina a arte do engano.

Ao comparar o polvo a Judas e ainda assim considerar o polvo inferior a Judas (“desce abaixo de Judas”), Vieira hiperbobiliza a maldade do polvo, e, por extensão, do homem traidor. Este rebaixamento intensifica a acusação e evidencia o extremo negativo a que chegou a humanidade.

Por fim, Vieira recorre à apóstrofe — dirigindo-se diretamente ao polvo: “Ó peixe aleivoso e vil!” Esta exclamação tem impacto emocional, demonstrando a força do sermão e a sua indignação enquanto pregador. A ironia está sempre presente: sendo o alvo aparente um peixe, a crítica é, afinal, destinada aos homens “piores que Judas”, deixando claro que o discurso é alegórico.

D. Contraste entre pureza da água e a malícia do polvo

Num contraponto final, Vieira destaca a pureza da água, “pura, clara, cristalina…” — usando adjetivos carregados de valor positivo — e contrapõe-lhe a vileza e malícia do polvo. Este contraste serve para reforçar a dimensão didática do sermão: a natureza é um espelho da perfeição e ordem divina; o polvo, intruso em tal ambiente, simboliza a corrupção que mina os valores morais dentro de uma sociedade que deveria ser pura.

O recurso ao superlativo, como em “excesso tão afrontoso”, sublinha a gravidade da situação e produz uma sensação de indignação, partilhada e amplificada pelo ouvinte. Os adjetivos acumulados (“dissimulador, fingido, astuto, enganoso, traidor”) desumanizam o traidor, tornando o quadro quase apocalíptico, onde o mal, infiltrado sob camadas de falsa virtude, representa uma ameaça não só estética como moral.

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III. Conclusão

Em síntese, o episódio do Polvo no *Sermão de Santo António aos Peixes* consagra-se como um dos momentos mais poderosos da retórica moral de Vieira. Começando pela descrição de uma aparência enganadora—marca de mansidão e humildade—o autor desconstrói esta imagem, demonstrando que há por trás dela uma estratégia de dissimulação e traição, que se manifesta na capacidade de mudar de cor para capturar vítimas incautas. O polvo é, por isso, paradigma do traidor e hipócrita, figura que Vieira consegue colocar abaixo do próprio Judas Iscariotes, com todas as implicações que, no contexto cristão, essa comparação tem.

O significado alegórico e moral do episódio é claro: o polvo é símbolo de todos os que imitam a virtude para melhor exercer a falsidade. O discurso de Vieira é, como é habitual no Barroco, marcado pelo uso de metáforas, comparação, argumento de autoridade, perguntas retóricas e paralelismos com exemplos bíblicos, enriquecendo o texto e tornando-o mais próximo do auditório religioso e culto do século XVII.

O sermão não se limita a censurar: pretende educar, transformar e purificar a sociedade. Ao dirigir a acusação aos homens do seu tempo, Vieira usa as palavras para trazer à luz o que de mais pérfido existe nas relações humanas — a hipocrisia e a dissimulação. Se, nos nossos dias, a crítica à falsidade e à traição continua relevante, isso prova que a análise profunda dos mecanismos e estratégias do discurso é essencial para compreender a força duradoura desta obra.

O episódio do Polvo continua, assim, a ser material de reflexão para os estudantes portugueses, não só como testemunho da riqueza literária barroca, mas como desafio permanente à honestidade e à integridade humanas.

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IV. Dicas gerais para desenvolvimento do ensaio

Este ensaio seguiu uma estrutura clara, com as ideias principais bem delimitadas em cada parágrafo. Todas as interpretações foram fundamentadas em citações relevantes (com indicações de linha), e o texto faz sempre a ponte entre análise formal — destacando figuras de estilo como comparações, anáforas, enumerações, apóstrofes e trocadilhos — e o conteúdo moral subjacente.

O registo formal utilizado, a precisão terminológica e a atenção ao contexto histórico e religioso visam aprofundar a leitura e revelar a força do sermão enquanto peça oratória e literária. Fundamental foi, também, reforçar que os peixes de Vieira são metáforas de comportamentos humanos, ligados a vícios condenados pela moral cristã — um aspeto que, abordado nos estudos secundários em Portugal, exige sempre destaque na análise. Por fim, sublinha-se a importância das referências bíblicas e culturais comuns à audiência portuguesa, sem recorrer a exemplos exógenos ao nosso contexto.

Desta forma, a análise deste episódio contribui não só para enriquecer o conhecimento literário, mas também para o amadurecimento moral e reflexivo dos leitores e estudantes.

Perguntas de exemplo

As respostas foram preparadas pelo nosso professor

Qual o resumo do episódio do Polvo no Sermão de Santo António aos Peixes?

O episódio do Polvo representa a hipocrisia e traição humanas, onde a aparência de humildade esconde intenções perversas, sendo criticado por Vieira como símbolo máximo do traidor dissimulado.

O que simboliza o Polvo no Sermão de Santo António aos Peixes?

O Polvo simboliza a dissimulação, traição e hipocrisia entre os homens, servindo de alegoria para aqueles que escondem más intenções sob uma aparência virtuosa.

Como é feita a análise do Polvo por Vieira no Sermão de Santo António aos Peixes?

Vieira utiliza metáforas e figuras de estilo para caracterizar o Polvo como hipócrita, destacando sua capacidade de mudar de cor para enganar e capturar vítimas, criticando assim a falsidade humana.

Qual a comparação estabelecida entre o Polvo e Judas no Sermão de Santo António aos Peixes?

Vieira compara o Polvo a Judas Iscariotes, afirmando que o Polvo é ainda mais vil por praticar traição diretamente, enquanto Judas atuou como intermediário, agravando a crítica à maldade humana.

Que função tem o contraste entre a água e o Polvo no Sermão de Santo António aos Peixes?

O contraste entre a pureza da água e a malícia do Polvo reforça a ideia de corrupção moral, destacando como a hipocrisia degrada a ordem e a virtude que deveriam prevalecer numa sociedade ideal.

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