Composição Narrativa: Reflexões sobre um Dia Chuvoso e Desafiante
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 15.01.2026 às 19:13
Tipo de tarefa: Redação
Adicionado: 15.01.2026 às 18:34

Resumo:
Após um dia difícil, o protagonista encontra no sótão uma caixa de música mágica que o leva a um mundo fantástico e se torna o seu refúgio.
Escrita em Dia: Caixa Velha
I. Introdução
Naquele dia, a casa parecia ainda mais abafada e pequena do que o habitual. As nuvens densas cobriam o céu de cinzento, e uma chuva miudinha, mas persistente, batia com força nas janelas há horas, como se quisesse entrar também no desânimo que eu sentia. Trazia os ombros pesados, a alma magoada. O dia de aulas fora um desastre: cadernos encharcados, livros deformados pelo peso da água, as meias ensopadas desde o segundo degrau da escola, quando um camião passou de rompante por cima de uma poça. Sentia-me indesejado pelo próprio mundo, desenquadrado, sem lugar para pousar.Era curioso como, nos momentos mais miseráveis, pequenas coisas pareciam tomar proporções gigantescas. Senti-me verdadeiramente à beira do limite — “AAAAAAAAAAAH!”, acabei por gritar na almofada assim que cheguei ao quarto. Filipa, a minha amiga incansável, interveio com a sua habitual generosidade, emprestando-me os seus apontamentos e tentando animar-me. Mas até ela esbarrou contra a muralha do meu cansaço. Nessas alturas, até o toque do telemóvel parecia uma afronta. Os dias passavam cinzentos e inúteis, sem promessa de descanso. Mal sabia eu que o mundo tinha preparado, naquele sótão esquecido da casa da avó, uma surpresa daquelas que nos fazem repensar tudo.
II. Desenvolvimento
A. Um dia difícil: a tempestade e o desânimo
A cada passo na escola, sentia o peso das horas e da água, o cheiro estranho de papel molhado, o frio entranhado nos ossos. As meias coladas aos pés, aquela humidade irritante, davam vontade de chorar. Não era só desconforto físico: era a metáfora de tudo o que sentia por dentro. A mochila, que sempre suportara estoicamente os livros de matemática da Professora Clotilde, finalmente cedeu; o estojo, outrora colorido, ganhou manchas tristes e indefinidas.A raiva levava-me a pontapear pequenas pedras pelo caminho de regresso a casa. “Porquê a mim? Porquê agora?” Oiço o trovão e quase respondo, esperando que alguém me justifique tanta falta de sorte. Filipa foi um raio de sol, mas temporário. Mesmo ela, com aquele sorriso quase de anjo, não conseguiu desfazer a nuvem que pairava em cima do meu humor. Senti-me só, injustiçado e farto deste mundo obscuro que me calhara em sorte.
B. Subida ao sótão: poeira, sombra e descoberta
Saí do quarto, fugindo de mim mesmo e dos gritos que ameaçavam explodir outra vez. Os degraus rangiam debaixo dos pés, reguendo-se em protesto. Subi ao sótão — aquele espaço quase mítico das histórias que lia em criança, sempre associado a segredos antigos e memórias esquecidas. Assim que abri a porta, o cheiro intenso a pó, bolor e madeira antiga encheu-me o nariz e as narinas.Ali, a luz mal se filtrava entre as telhas velhas. Grito ao acaso — “Estão todos aí? Alguém vivo no meio destas tralhas?” — como se esperasse resposta dos objetos inanimados. Senti-me ridículo, mas não consegui evitar. Um ataque repentino de fúria levou-me a atirar uns quantos livros para longe, o pó levantando-se e vestindo-me de cinzento. Mas então, no meio do caos, vi qualquer coisa diferente: uma caixa debaixo de uma toalha roída pelo tempo.
Aproximei-me, ainda a bufar de raiva, mas a curiosidade ganhou força. Era uma caixa de madeira, de tons escurecidos e textura gasta. Os cantos arredondados denunciavam anos de manuseio cuidadoso. No fecho, pequenas marcas ferrugentas contavam histórias de humidade e sobrevivência. Gravado em relevo, um padrão estranho, algo entre folhas de parreira e símbolos que já havia visto em azulejos antigos lá na vila. Ao tocá-la, senti uma calma estranha — como se alguém tivesse aberto uma janela num quarto abafado.
C. O segredo da caixa: música, magia e transformação
Abri a tampa com cuidado. Dentro, repousava uma pequena caixa de música — feita de metal e madeira incrustada, com um mecanismo antigo, daqueles que só funcionam ao dar corda. O verniz estava lascado, mas o desenho de andorinhas sorria em volta dos lados. Girei lentamente a manivela, sentindo o clique hesitante dos dentes da engrenagem.Quando finalmente a caixa começou a tocar, a melodia envolveu o ar e pareceu dissolver toda a poeira em redor. Era uma música calma, suave, quase como um aceno maternal ou um abraço que há muito ansiava. Encostei o ouvido, fechei os olhos. A pouco e pouco, a tensão do corpo esvaiu-se. O mundo desapareceu. Fiquei ali, absorto, embalada por aqueles acordes. Os dedos leves descansaram sobre o tampo, e devagarinho o sono trouxe outro mundo.
D. Viagem ao mundo fantástico
O que vi a seguir dificilmente consigo pôr em palavras. Era como se me deitasse na relva mais verde que alguma vez vira, sob um céu de um azul impossível de descrever — como nos painéis de azulejo das estações históricas do Porto, mas em movimento. O cheiro, uma mistura de alfazema e terra molhada, recordava-me férias com os avós no campo. O vento era uma carícia, transportando sons de sinos distantes e risos infantis.Ali, no meio do prado, senti-me leve. Mais leve do que alguma vez me lembrava. Havia liberdade: podia correr, saltar, voar — como uma águia a planar sobre a serra da Estrela, sem medo, sem pressa. O corpo era apenas seda, e a alma, finalmente, largava os grilhões do cansaço. Senti um amor profundo, vindo de todos os lados: as árvores sussurravam palavras ternas, os riachos acompanhavam com melodias de água fresca.
Nada ali julgava. Nem as roupas, nem os gostos ou hábitos. Não havia necessidade de explicar quem era ou de esconder as mágoas. Era simplesmente aceite — e isso bastava. Sentei-me junto a um lago cristalino; as mãos podiam tocar a água sem sentir frio. Encostei a cabeça a uma pedra morna e, pela primeira vez em muito tempo, senti-me seguro, inteiro.
E. O regresso: realidade e vontade de evasão
A música acabou. Acordei devagar, como quem regressa à superfície depois de nadar num rio profundo. O teto baixo e o pó do sótão voltaram a envolver-me, implacáveis. O silêncio era duro; a chuva recomeçava a bater nas telhas. Um sentimento de perda atravessou-me — uma dor fina, fina, como quem sabe que já não pertence inteiramente a um só lado da vida.Sentei-me com a caixa de música nas mãos, apertando-a com força. O desejo de regressar àquele mundo era insuportável. O real parecia intolerável, cinzento. Girei a manivela outra vez. Lentamente, aquela melodia voltou a embalar-me, e fechando os olhos, voltei ao mundo escondido, onde a esperança morava e o amor era sem medida. Desde esse dia, repeti o ritual vezes sem conta, fugindo, quase por necessidade, das agruras do quotidiano. A caixa tornou-se uma espécie de passagem secreta, um porto seguro.
III. Conclusão
É estranho como um objeto tão simples pode mudar o mundo de uma pessoa. Aquela caixa velha, perdida num sótão poeirento, tornou-se no meu refúgio, na minha salvação em tantos dias sombrios. Não era apenas uma “caixa de música” — era a chave para um espaço onde as dores se diluíam, onde eu podia reinventar-me e reencontrar coragem para enfrentar as tempestades do lado de cá.Pensei muitas vezes em como os sonhos, mesmo acordados, servem de muralha ao desespero que por vezes nos invade. Numa sociedade como a nossa, tão marcada por exigências e julgamentos, talvez devêssemos todos guardar uma “caixa” destas, física ou imaginária, para manter viva a chama da esperança. Como bem dizia Sophia de Mello Breyner, «para encontrar o que está perdido/ é preciso entrar no lugar escuro.» Foi no sótão escuro da casa da avó que descobri o meu lugar de luz.
Ainda hoje, quando o mundo ameaça afundar-se em cinzento, procuro a caixa. Nunca saberei se um dia deixarei de precisar dela — mas sei, com toda a certeza, que enquanto existir música, haverá sempre um caminho secreto para o prado, para o céu azul e para a liberdade. Quem sabe, talvez todos nós — mesmo sem sabermos — tenhamos uma caixa velha, à espera que a encontremos.
E assim, com o som longínquo das andorinhas a sobrevoar-me, fecho os olhos e entrego-me, mais uma vez, ao abraço mágico da melodia que transforma o mundo, mesmo que apenas por instantes...
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