A Importância da Filosofia no Desenvolvimento do Pensamento Crítico
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 15.01.2026 às 19:39
Tipo de tarefa: Redação
Adicionado: 15.01.2026 às 19:13
Resumo:
A filosofia desenvolve o pensamento crítico, combate o conformismo e estimula a liberdade, sendo essencial para uma sociedade livre e consciente.
O Valor da Filosofia
I. Introdução
A filosofia, outrora reservada aos círculos intelectuais e pensadores académicos, tornou-se, nas últimas décadas, um tema progressivamente presente nas conversas do quotidiano, nos media e—de destaque—no ensino em Portugal, particularmente nos currículos do ensino secundário. Não é raro ouvir-se um estudante questionar a relevância das questões filosóficas, perguntando-se, perante um exercício de “debate socrático” ou uma análise de Kant, para que serve afinal a filosofia. Este tipo de inquietação conduz-nos, inevitavelmente, à interrogação fundamental: “Onde está, verdadeiramente, o valor da filosofia?” Não é apenas uma curiosidade académica, mas um apelo à compreensão do papel que a filosofia desempenha no nosso desenvolvimento pessoal e coletivo. Ninguém pode, de facto, ficar indiferente a este problema central.A minha posição é clara: o valor da filosofia reside na sua capacidade de mover o pensamento, desafiar preconceitos enraizados e expandir a nossa visão do mundo. Ainda que não nos entregue respostas definitivas, é precisamente na abertura de horizontes, no exercício do questionamento e na promoção do pensamento crítico que encontramos o seu maior contributo. Ao longo deste ensaio, defenderei que a filosofia é insubstituível para a formação de um espírito livre e autónomo, abordando o seu confronto e relação com a ciência, a virtude da incerteza filosófica, e, por fim, a ideia do filosofar como um caminho e não um destino fixo. Para tal, recorreremos a exemplos históricos, literários e culturais do contexto português e europeu, a metáforas inspiradas como a do “coelho que saiu da cartola” (de Jostein Gaarder), bem como a referências clássicas como Jaspers.
II. O valor insubstituível da filosofia no desenvolvimento do pensamento humano
Desde os tempos mais remotos, a filosofia foi a matriz de todas as grandes questões humanas. A inquietação perante o mistério da existência, a procura do sentido da vida, o questionamento sobre o bem e o mal, o certo e o errado, tudo isto nasce de uma disposição filosófica. Podemos recordar o exemplo dos filósofos gregos que, ao interrogar o mundo que os rodeava, romperam com as narrativas míticas dominantes e abriram espaço para um pensamento crítico genuíno. Esta atitude de permanente estranheza perante o óbvio afasta-nos do “pensamento nulo”—uma aceitação passiva de tudo o que nos rodeia.O escritor Jostein Gaarder, no amplamente lido e adotado “O Mundo de Sofia”, utiliza uma metáfora brilhante para ilustrar a postura do filósofo: “[...] o topo da pelagem do coelho que saiu da cartola do universo”. O filósofo, perante este espetáculo, não se contenta em ver o coelho saltar, mas aproxima-se, questiona, observa fascinado cada pormenor da pelagem, procurando, humildemente, compreender o inexplicável. Este olhar—espantado e admirado, quase infantil—é a essência do pensamento filosófico: nunca aceitar o “porque sim”, mas perguntar sempre “porquê?”.
No panorama histórico e cultural português, a filosofia teve igualmente uma influência estruturante. Desde os humanistas do Renascimento que, atravessando o escolasticismo e o racionalismo europeu, trouxeram para Portugal o debate filosófico, até figuras como Agostinho da Silva ou José Marinho, a tradição filosófica portuguesa sempre esteve ligada à busca de novos sentidos para o humano e para a sociedade. As grandes mudanças sociais, as lutas pela liberdade e justiça, muitas vezes tiveram raízes profundas em ideias filosóficas amadurecidas ao longo de décadas de reflexão. Assim, a filosofia é não só fomento de pensamento mas também motor de verdadeira transformação cultural, ética e política.
III. A controvérsia acerca do valor da filosofia
Apesar do seu papel insubstituível, a filosofia é frequentemente alvo de críticas. Muitos, defendendo uma visão restrita do conhecimento, consideram-na inútil ou até estéril. Este preconceito deve-se, em grande medida, ao apego aos “objectos habituais” da experiência e ao desinteresse relativamente àquilo que é incógnito ou incerto. Em Portugal, observa-se por vezes, sobretudo entre alunos menos motivados ou entre setores mais pragmáticos da sociedade, uma postura de indiferença perante as “ideias abstratas” da filosofia, preferindo valorizar áreas ditas mais “úteis” e “práticas”.Uma das críticas mais recorrentes indica que a filosofia não traz respostas definitivas. A diversidade de opiniões—de Platão a Nietzsche, de Santo Agostinho a Bertrand Russell—seria, para estes críticos, uma prova de ineficácia: se nem mesmo os filósofos concordam, para que serve filosofar? Esta visão, porém, esquece que a incerteza é, na verdade, uma fonte de riqueza intelectual, não uma falha. Num mundo onde a dogmática leva à intolerância, à estagnação e, muitas vezes, ao fanatismo, a abertura ao questionamento torna-se valor essencial. A filosofia, ao recusar-se a encerrar prematuramente os debates, permite a construção de um pensamento crítico e autónomo. Em vez de enfaixar as nossas convicções, desafia-nos a revê-las, a crescer e a reinventar-nos.
Além disso, num país que viveu sob o longo manto da censura e da ortodoxia durante décadas (no Estado Novo, por exemplo), a liberdade de pensamento, inspirada e protegida pela filosofia, tornou-se ainda mais preciosa. A história demonstra que onde a filosofia foi relegada ao silêncio, a criatividade e o espírito crítico definharam, abrindo portas ao conformismo e à opressão.
IV. A importância da filosofia para a liberdade e abertura de pensamento
Numa sociedade cada vez mais dominada pela rapidez da tecnologia, do consumo e das respostas prontas, a ameaça de um “deserto de pensamento” tornou-se real. Ramalho Ortigão, nas suas “Farpas”, já ironizava sobre a superficialidade contemporânea. A filosofia luta contra esta esterilidade, apresentando alternativas e recusando a fácil satisfação das ideias pré-fabricadas. O debate filosófico—aberto, plural, argumentativo—estimula-nos a pensar para lá do imediato, a cultivar a autonomia frente ao império das “verdades” fáceis.O confronto com teses opostas, tão presente nas aulas de filosofia do secundário português, obriga o estudante a enfrentar ideias desconfortáveis, examinando (e questionando) princípios e valores recebidos quase por osmose. É este exercício que desencoraja o pensamento conformista, enraizado na simples tradição, e estimula a liberdade interior: pensar por conta própria, resistir ao rebanho. José Saramago, em várias entrevistas e ensaios, sublinhou precisamente que a capacidade de dúvida e autocrítica é o cerne de qualquer sociedade livre.
Se a filosofia não oferece certezas dogmáticas, exige em contrapartida um esforço constante de revisão e aprendizagem. Não se trata de alcançar um destino, mas de nunca abandonar a estrada da reflexão. Só assim evitar-se-á cair na apatia e no dogmatismo, conservando a abertura para o diálogo e para a multiplicidade de perspectivas, tão valorizada na tradição filosófica ocidental desde o seu início.
V. Filosofia e ciência: complementaridade e diferenças
Nos dias de hoje, é frequente opor a filosofia à ciência. Contudo, este antagonismo é redutor. A ciência, sem dúvida, busca respostas objetivas, mensuráveis e replicáveis. O seu método experimental trouxe avanços inegáveis à humanidade. Mas há questões fundamentais que a ciência, por si só, não consegue abordar: qual o sentido da existência, o valor da liberdade, os fundamentos da moral. Aqui, a filosofia revela o seu papel estruturante.Grandes vultos da filosofia ocidental foram, em simultâneo, fundadores do pensamento científico. Aristóteles, base da tradição racionalista, tanto escreveu sobre metafísica quanto sobre biologia, influenciando ainda hoje a ética e as ciências naturais. René Descartes, nascido numa Europa em ebulição científica, conciliou o rigor matemático com o ceticismo filosófico. Immanuel Kant discutiu os limites do conhecimento ao mesmo tempo que reformulava a moral. Estes exemplos, aprendidos nos currículos escolares portugueses, provam que ciência e filosofia não só coexistem como frequentemente dialogam e se complementam.
A filosofia questiona as próprias premissas da ciência, escrutinando os seus pressupostos e limites. Onde a ciência procura o “como”, a filosofia interroga o “porquê”. A distinção entre ambas não anula, portanto, a necessidade de cada uma, antes reforça a importância de uma abordagem plural do saber humano.
VI. Filosofar como um caminho e não uma meta final
Relembro, a este propósito, a ideia do filósofo existencialista Karl Jaspers: “filosofar significa estar-a-caminho”. Esta é talvez a resposta mais lúcida à ansiedade moderna pela certeza total. A vocação da reflexão filosófica não é a de alcançar verdades finais, mas sim a de acompanhar o homem no seu percurso infinito de questionamento. Ao contrário das disciplinas que permitem respostas acabadas, a filosofia valoriza o próprio processo investigativo: é no caminhar, na dúvida, na procura, que reside o seu valor.O movimento constante do pensamento—sempre atento, sempre crítico—é fonte de crescimento interior. Aceitar a incerteza é condição de humildade e sabedoria. O filosofar não é um luxo de poucos, mas um exercício fundamental de liberdade, um antídoto contra todo o fechamento dogmático.
Ao tomarmos a filosofia como estilo de vida, como convite ao pensamento livre e aberto, tornamo-nos mais humanos, mais compreensivos perante a diferença, mais aptos a viver em comunidade e respeitar a pluralidade de ideias.
VII. Conclusão
Ao longo deste ensaio, defendi o valor fundamental da filosofia enquanto promotora de reflexão crítica, abertura de espírito e combate ao conformismo que ameaça a vitalidade intelectual da sociedade portuguesa. Demonstrou-se que a “incerteza” filosófica não é um defeito, mas uma virtude essencial num mundo cada vez mais marcado pelo imediatismo e pela polarização. Recordámos, com Jostein Gaarder, o apelo ao espanto perante o mistério da existência e, com Jaspers, a humildade de quem aceita “estar-a-caminho”.Num tempo em que muitos preferem respostas fáceis, a filosofia mantém-se uma das poucas disciplinas capazes de resgatar a autenticidade e a profundidade do pensamento humano. O seu valor está, sobretudo, na capacidade de estimular em nós a coragem de perguntar, de criticar e de não aceitar limites impostos ao nosso saber.
Assim, deixo este apelo: que não se reduza a filosofia a mera nota de rodapé nos currículos escolares ou à fatalidade de um exercício académico, mas que se abrace o seu desafio como parte indispensável da vida intelectual, ética e cívica. Que cada um de nós cultive o “espírito filosófico”, aceitando a incerteza e o trabalho contínuo da reflexão como caminho para uma compreensão cada vez mais plena de si próprio e do mundo. Pois, como lembra Saramago, “a dúvida é o preço da liberdade”—e talvez a filosofia seja o seu pagamento mais honesto.
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