Resumo

Resumo e análise das personagens no Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente

approveEste trabalho foi verificado pelo nosso professor: 15.01.2026 às 17:23

Tipo de tarefa: Resumo

Resumo e análise das personagens no Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente

Resumo:

Resumo crítico do "Auto da Barca do Inferno": sátira de Gil Vicente que denuncia hipocrisia social e moral, defendendo a justiça baseada nas ações.

Introdução

«Auto da Barca do Inferno» é uma das obras mais emblemáticas da literatura portuguesa, da autoria de Gil Vicente, o dramaturgo considerado o pai do teatro em Portugal. Escrita e representada pela primeira vez em 1517, esta peça surge num contexto de grandes transformações em Portugal: a expansão marítima conferia poder e riqueza a algumas classes, enquanto a Igreja Católica, ainda todo-poderosa, impunha a sua moral rigorosa a uma sociedade profundamente estratificada. Neste quadro, Gil Vicente nasce como uma voz crítica, usando o teatro para pôr em causa os vícios das várias camadas sociais, servindo-se de uma alegoria claramente didática.

O género é o auto — peça teatral breve de caráter moral e religioso —, que nesta obra ganha contornos inovadores pela fusão de sátira, humor e crítica social. O palco transforma-se num cais de julgamento das almas após a morte, onde todos são confrontados com as suas ações em vida, independentemente do estatuto social ou do poder terreno que tenham detido.

Este ensaio tem por objetivo analisar criticamente as personagens apresentadas nas cenas II a VII da obra, explorando a sua caracterização psicológica e simbólica, assim como suas trajetórias e as intenções críticas de Gil Vicente. Ao longo da análise, destacar-se-á como o autor constrói um espelho da sociedade quinhentista, condenando tanto a corrupção e hipocrisia das elites como os pecados e fraquezas do povo, num convite à reflexão intemporal sobre o valor das ações perante a justiça última.

I. Contextualização Geral da Obra

A ação dramática desenrola-se num cenário altamente simbólico: um cais, onde se encontram duas barcas — a do Diabo, que conduz as almas dos condenados ao inferno, e a do Anjo, reservada aos poucos dignos da salvação. Este espaço liminar representa o momento do juízo final, remetendo para as crenças medievais do destino das almas, fortemente presente no imaginário coletivo português da época.

O elenco do auto é composto por personagens-tipo, cada uma representando uma classe social, profissão ou condição humana específica: nobres fidalgos, onzeneiros (usurários), membros do clero, trabalhadores humildes, sapateiros e alcoviteiras. Todos passam pelo mesmo processo de julgamento, exibindo perante o público os seus pecados e intenções.

A sátira, assente no humor e na caricatura, é o principal instrumento de Gil Vicente. Através de diálogos vivos e de situações burlescas, o autor desmonta a hipocrisia das classes dominantes e expõe as contradições religiosas e sociais. O auto vicentino não se limita a entreter: pretende educar pela provocação, colocando o público a rir-se de si próprio.

II. Análise Detalhada de Personagens e Cenas

1. Cena II – O Fidalgo

O Fidalgo, representante da nobreza, entra em cena acompanhado pelo pajem, trazendo consigo cadeira e manto — insígnias do poder, riqueza e autoridade. Logo no início da sua trajetória, a sua postura arrogante e altiva denuncia a crença de que a sua posição social o resguarda de qualquer julgamento severo. O fidalgo tenta embarcar na barca do Anjo, apelando ao seu solar e à linhagem nobre que, na mentalidade dominante da época, justificaria privilégios até na vida eterna.

No entanto, o Anjo recusa-o com um comentário lapidar: "Aqui não há solar nem couto". O Fidalgo não é acusado apenas pelo Diabo, mas também pelos objectos simbólicos que carrega: a cadeira simboliza o poder infundado na hierarquia, o manto, a vaidade, e o pajem, a subserviência e a tirania sobre os mais fracos. O seu percurso cénico culmina numa recusa de salvação e consequente condenação ao inferno.

Gil Vicente critica ferozmente a classe nobre, denunciando não só a sua arrogância e opulência, mas também a falta de compaixão com os desfavorecidos e a infidelidade conjugal — "Nunca leixeu mui bem casada", diz o Diabo, referindo-se aos adultérios do Fidalgo. Assim, o autor desmonta a fachada de respeitabilidade das elites, revelando o vazio moral por detrás do prestígio social.

2. Cena III – O Onzeneiro

Figura típica daqueles que enriqueciam à custa do povo, o Onzeneiro carrega o bolsão — símbolo incontestável do seu apego ao dinheiro e à usura. A sua presença no cais é marcada pelo nervosismo e pela tentativa, algo patética, de usar a riqueza para garantir lugar na barca do Anjo: "Eu tenho dinheiro quanto baste para pagar de cruzado a cruzado!".

Ao ser confrontado, o Onzeneiro argumenta que o seu bolso está vazio, tentando sugerir uma certa inocência. No entanto, a sua condenação é irrevogável: "Com tua bolsa vazia pagarás passagem", ironiza o Diabo. O trajecto do Onzeneiro é, assim, marcado pela impotência da riqueza material face ao juízo moral.

A crítica vicentina recai sobre a exploração financeira, a frieza de coração e a indiferença perante a miséria alheia. Nesta personagem, Gil Vicente fustiga a crescente importância do dinheiro, num período em que a economia portuguesa se expandia rapidamente, alimentando desigualdades e injustiças.

3. Cena IV – O Parvo

Diferentemente dos seus antecessores, o Parvo é uma figura do povo, caracterizada pela simplicidade, a humildade e certa tolice ingénua. Não carrega qualquer objeto simbólico, nem apresenta grandes defesas ou pecados aparentes. Em tom cómico, é interpelado por Diabo e Anjo, que parecem divertir-se com a sua ingenuidade e ignorância.

O Parvo acaba por não embarcar em nenhuma das barcas — permanece no cais, à espera, sugerindo a possível misericórdia divina para os ignorantes e humildes. Como figura cômica, serve também de contraponto aos "grandes", mostrando que os simples de espírito, desprovidos de ambição e malícia, podem estar em melhor posição para alcançar a salvação.

Gil Vicente valoriza assim o povo anónimo e humilde, sublinhando que a inocência e a humildade são virtudes mais valiosas do que o estatuto social ou o saber ostensivo.

4. Cena V – O Sapateiro

O Sapateiro representa os ofícios urbanos. Entra com avental e formas, símbolos da sua profissão e, indiretamente, dos pecados inerentes: a mentira, o engano e a exploração dos clientes. Revela-se astuto, tentando defender-se das acusações do Diabo evocando obras de caridade: "Eu fiz muitas esmolas e assisti à hora dos finados".

Contudo, é com firmeza que o Diabo o acusa: é ladrão, mentiroso, hipócrita, e até excomungado: "os sapateiros todos pelo mundo roubam, enganam e mentem". O Sapateiro representa, assim, a hipocrisia e a tendência para mascarar os pecados com práticas religiosas superficiais, tão comuns em setores das classes trabalhadoras.

Gil Vicente critica aqui a desonestidade intra-classe, mostrando que também os humildes podem partilhar dos vícios das elites. Ao condenar o sapateiro ao inferno, o autor denuncia a superficialidade das demonstrações religiosas e o falso moralismo.

5. Cena VI – O Frade

O Frade surge em cena munido de broquel, capacete e espada, vestígios de uma vida mundana claramente em desacordo com o seu hábito clerical. Contudo, o aspeto mais irónico é a presença da amante Florença, que denuncia a violação do voto de castidade e a openha dos prazeres carnais.

A alegria e o descaramento do Frade são intensificados pelo seu discurso orgulhoso: "Deus me perdôe, mas sei esgrimir como poucos", vangloria-se. Argumenta que rezou muitos salmos, mas o seu percurso não deixa dúvidas — a vida dupla, o exibicionismo e a hipocrisia são duramente castigados.

Esta personagem sintetiza a crítica severa de Gil Vicente à Igreja da época, frequentemente acusada de corrupção, hipocrisia e de não viver segundo os elevados princípios que pregava, antecipando uma crítica que, pouco depois, would explode across Europe with the Protestant Reformation.

6. Cena VII – A Alcoviteira

Por fim, a Alcoviteira, personagem marginal frequentemente associada à prostituição e à vida urbana, carrega uma parafernália de objetos simbólicos: cofres de embustes, armários cheios de mentiras, almofadas e, acima de tudo, o estrato de cortiça da sua casa movediça — símbolo da instabilidade e da dissimulação.

O discurso da Alcoviteira transborda hipocrisia: "Eu criei meninas para os cónegos", diz, pretendendo justificar-se perante o Anjo. Tenta apresentar-se como mártir, enfatizando os castigos sofridos, mas é rapidamente desmascarada. O seu destino é o inferno, sem apelo.

A crítica aqui não é apenas à prostituição, mas à manipulação, mentira e corrupção que grassam também nas classes mais baixas e, de forma velada, no próprio clero que recorre aos seus serviços.

III. Conclusão

«Auto da Barca do Inferno» é uma radiografia impiedosa da sociedade portuguesa dos séculos XV e XVI, feita com o talento inigualável de Gil Vicente. Através de um cenário simples e altamente simbólico, o autor desmonta as máscaras das várias personagens, expondo vícios, contradições e injustiças profundamente enraizadas.

A grande força da peça reside na universalidade da sua crítica: a corrupção, a hipocrisia e a exploração do mais fraco eram temas tão atuais na Lisboa quinhentista quanto o são hoje. Por meio do humor e da sátira, Gil Vicente transforma o riso em reflexão: ninguém está acima do Juízo Final, e a justiça divina não conhece títulos, fortunas, hábitos nem credenciais.

A mensagem principal do auto, válida em qualquer época, é clara: mais do que a posição social, são as ações, a honestidade e a verdade da vida moral de cada um que contam perante a justiça última. A peça adquire assim um valor didático intemporal, alertando para os perigos da vaidade, do materialismo e da falsa devoção. Ao fazê-lo, Gil Vicente convida o espectador a olhar-se ao espelho e a avaliar-se não pelas posses ou insígnias, mas pelo valor das suas escolhas diárias.

A relevância do «Auto da Barca do Inferno», estudada em Portugal desde o ensino básico ao secundário, permanece indiscutível. Continua a ser um convite à reflexão ética e social, usando o riso e o símbolo para despertar consciências — como só os grandes clássicos conseguem fazer.

Perguntas de exemplo

As respostas foram preparadas pelo nosso professor

Qual o resumo das personagens no Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente?

As personagens representam diferentes classes sociais, de fidalgos a trabalhadores humildes, cada uma julgada pelos seus pecados num cais entre o céu e o inferno.

O que simbolizam as personagens do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente?

As personagens simbolizam tipos sociais do século XVI e expõem criticamente os vícios, hipocrisias e injustiças de diferentes classes e profissões.

Que crítica social faz Gil Vicente nas personagens do Auto da Barca do Inferno?

Gil Vicente critica a corrupção, o materialismo e a falsa devoção presentes em todas as classes sociais, mostrando que ninguém está acima da justiça última.

Como o Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente utiliza a sátira nas personagens?

A sátira revela-se através do humor e caricatura, ridicularizando as pretensões, pecados e contradições das personagens ao serem julgadas após a morte.

Qual a mensagem principal do Auto da Barca do Inferno sobre as personagens?

O auto transmite que as ações e a honestidade pesam mais do que o estatuto social no julgamento final, incentivando a reflexão ética intemporal.

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