Análise

A Passarola em 'Memorial do Convento': técnica, misticismo e utopia

approveEste trabalho foi verificado pelo nosso professor: 16.01.2026 às 18:40

Tipo de tarefa: Análise

Resumo:

Análise da construção da Passarola em Memorial do Convento: máquina utópica que une técnica, misticismo e vontade coletiva, revelando custo social.

Construção da Passarola em *Memorial do Convento*: Entre Engenho, Espiritualidade e Utopia

I. Introdução

Entre o pó dos estaleiros e o céu prometido erguem-se sonhos que desafiam a força da gravidade — sonhos que, como a Passarola, oscilam entre a potência de uma máquina improvável e a sedução de um voo transformador. É nesta tensão, entre a terra das misérias quotidianas e a aspiração quase celeste, que José Saramago inscreve a epopeia da Passarola em *Memorial do Convento*: máquina impossível, metáfora da inquietação humana, mas também obra profundamente enraizada no Portugal barroco, com as suas contradições sociais, políticas e espirituais.

Publicado em 1982, este romance inscreve-se de forma particular no percurso saramaguiano, fundindo o realismo histórico com uma dimensão mágica e intemporal. O episódio da construção da Passarola — pouco mais que um capítulo prodigioso na história de Baltasar, Blimunda e do padre Bartolomeu Lourenço — impõe-se como eixo simbólico do romance. Aqui, a matéria comum da vida — braços, madeira, metal — cruza-se com o invisível — música, vontades, misticismo — para dar forma a um projecto utópico.

É nesta conjunção de técnicas, materiais e sonhos, com especial destaque para o modo como se fundem ciência, arte e misticismo, que a Passarola condensa as maiores tensões do romance: entre saber técnico e fé, entre ambição individual e política, entre libertação e opressão. Este ensaio propõe-se analisar a construção da Passarola sobretudo como metáfora de utopia coletiva e de tensão entre racionalidade e desejo, articulando as dimensões materiais, humanas e simbólicas que atravessam esta máquina de voo impossível, e explorando como Saramago faz do episódio um comentário abrangente sobre o poder — e o perigo — de sonhar. Partiremos do contexto histórico, passaremos pelo papel dos personagens na construção, examinaremos materiais e combustíveis, etapas do fabrico, simbolismo do voo, efeitos de estilo e debates críticos, antes de chegar a algumas conclusões sobre o significado da Passarola na cultura portuguesa.

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II. Enquadramento Histórico, Literário e Barroco

A construção da Passarola só se compreende à luz do Portugal de D. João V, época de monumentos faustosos como os Convento de Mafra, iluminada pelo ouro brasileiro e marcada pelo peso da Inquisição. Saramago situa a narrativa no século XVIII, período onde o delírio do projeto régio eclesiástico coexistia com a repressão inquisitorial: construía-se um convento gigantesco enquanto o povo gemia pelo esforço, e sonhadores eram vigiados por forças religiosas.

Na tradição barroca, tão visível em Mafra, destacam-se o excesso, o maravilhoso e a busca do sublime em contraste com a fragilidade humana. A Passarola emerge desse espírito: é tão grandiosa e insólita como as obras-primas barrocas, mas não pode esquecer o seu custo social. O episódio reflete ainda a mentalidade de uma época em que ciência e magia conviviam — e a máquina de Bartolomeu Lourenço perfaz, assim, uma ponte entre o pensamento científico e o misticismo popular.

Literariamente, *Memorial do Convento* revê a tradição portuguesa de crónica histórica à luz do imaginário mágico-alegórico. Saramago reinventa a história nacional, sublinhando ironias do poder e elevando figuras marginais (Brasileiro, camponeses, mulheres) à condição de protagonistas de feitos prodigiosos. É um romance em que o maravilhoso serve sempre uma reflexão crítica sobre o real, e a Passarola destaca-se como emblema nesta abordagem: lança perguntas incómodas sobre o acto criador, os limites do saber e o destino do coletivo nacional.

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III. Personagens-chaves e os seus contributos

A epopeia da Passarola é, antes de mais, obra de quatro protagonistas que representam diferentes dimensões da experiência humana e da sociedade.

1. Padre Bartolomeu Lourenço: O Visionário Dividido

Padre Bartolomeu é o génio inquieto que sonha conquistar o céu — mas o seu saber atua entre dois fogos: o do racionalismo científico, assente em observação e dedução, e o da espiritualidade barroca, onde a fé e a alquimia se confundem. É Bartolomeu quem desenha os planos, investiga o movimento dos ímanes e persegue, numa quase obsessão, o segredo do éter que permitiria a ascensão. Simboliza o intelectual atirado entre a esperança régia — D. João V patrocina o projecto esperando colher glória — e o risco da condenação inquisitorial. Nesta ambiguidade, Bartolomeu é tanto herói trágico como inquietante figura do saber que pretende dominar o mundo, desafiando tanto a ignorância como as proibições institucionais.

2. Baltasar Sete-Sóis: A Força do Trabalho

Baltasar é o trabalhador, mutilado pela guerra, que, longe de ser apenas braço executante, participa criativamente no fabrico da máquina. A sua deficiência física não o impede: pelo contrário, interroga as ideias de capacidade, desafio e heroísmo coletivo. Saramago atribui ao “proletário” o papel de verdadeiro artífice do milagre tecnológico, tornando explícita a dimensão de sacrifício e de resistência que fundamenta toda a construção. Sem o esforço paciente, repetitivo e solidário de Baltasar, a Passarola não sairia do papel — é a laboriosidade do povo, tantas vezes ignorada nos discursos triunfalistas, que sustentará o impossível.

3. Blimunda Sete-Luas: O Mistério do Invisível

Blimunda, mulher dotada do dom de “ver por dentro”, é a portadora do elemento verdadeiramente revolucionário: as vontades humanas, invisíveis aos olhos comuns, que alimentam a máquina. Cabe-lhe a recolha das “vontades” — as esperanças e desejos recolhidos em segredo, fonte de energia mais espiritual que material. Blimunda move-se entre o sacrifício (absorve sofrimento e cansaço), o misticismo feminino (é próxima da terra, das forças naturais, dos ciclos) e o poder redentor: sem ela, o engenho do padre e a força de Baltasar seriam inúteis. No sofrimento que acompanha a sua missão, denuncia-se ainda o preço humano da utopia.

4. Domenico Scarlatti: A Música como Combustível

Scarlatti, compositor ao serviço da corte, revela a ligação entre arte e ciência ao salvar Blimunda através da música. A sua arte funciona como mediadora entre físico e etéreo, mostrando o papel da criatividade e da beleza na libertação das forças ocultas. No episódio em que salva Blimunda tocando cravo, a música torna-se meio de cura, congregação e impulso para o voo. Assim, Saramago sugere que toda grande obra necessita não só de braços e engenho, mas de uma vibração emotiva e artística.

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IV. Materiais, Técnica e os “Combustíveis”

A Passarola exige uma combinação singular de materiais concretos e de matéria abstracta, cuja análise revela múltiplos níveis de leitura, do físico ao alegórico.

Entre os materiais destacam-se o âmbar (elemento nobre e raro), os ímanes, a madeira, as cordas e todo um arsenal das oficinas do século XVIII. Destes, o âmbar é especialmente importante, pois era, nas tradições científicas da época, uma substância associada à eletricidade natural, à atração de forças invisíveis. O uso do âmbar e do íman evidencia uma tentativa de transformar antigos saberes em tecnologia de ponta.

Porém, Saramago introduz um elemento disruptivo: o verdadeiro combustível não é físico, mas reside nas “vontades”. Enquanto no barroco europeu se procurava o “éter” como substância universal que permeava o cosmos, aqui o éter torna-se desejo coletivo, força psicológica e social que, literalmente, põe a máquina a funcionar. Ao pedir a Blimunda que recolha estas vontades, Saramago sugere que a verdadeira matéria da transformação histórica reside no invisível partilhado — esperança, desejo, sofrimento — do povo.

Assim, a Passarola é metáfora da fusão entre engenho técnico e espírito humano, escancarando limites da tecnocracia: não basta saber ou planear; é preciso envolver o conjunto das energias humanas. “Sem vontades, não voa máquina”, diz-nos, numa lição sobre a impossibilidade de emancipação puramente técnica, tal como de progresso sem inclusão coletiva.

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V. Etapas da Construção e Estrutura Narrativa

A narração da construção da Passarola acompanha um movimento progressivo, feito de avanços, recuos, acidentes e milagres, que revela tanto os processos do trabalho real quanto a estruturação literária do romance.

O sonho de levantar voo inicia-se como hipótese teórica, ganha forma com a recolha de materiais e arranca, finalmente, com o fabrico da máquina. O quotidiano do canteiro serve de modelo: jornadas rotineiras, tarefas ora monótonas ora extraordinárias, encontros furtivos fugindo à vigilância inquisitorial. A temporalidade é marcada pelas estações, os atrasos impostos pelas perseguições do Santo Ofício, a doença que acomete Blimunda e a ressurreição proporcionada pela música de Scarlatti.

Saramago recorre a uma linguagem marcada por elencos, listas, frases extensas, ora quase inventariando peças, ora descrendo ironicamente da própria grandiosidade — “é só uma máquina, feita de matéria e sonho”. Ao alternar ritmo acelerado com episódios contemplativos, o narrador aproxima o impossível do quotidiano e enfatiza a comunidade do fazer. O momento do voo, precipitado pela urgência e pela ameaça, adquire assim um impacto dramático ainda maior: é tanto consecração como fuga, triunfo e risco.

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VI. Simbologia do Voo e Leituras Interpretativas

O voo da Passarola conjuga múltiplos sentidos, funcionando como metáfora fundamental do romance — e da própria condição portuguesa.

Em primeiro lugar, liga-se à ascensão espiritual: remete para o impulso religioso de alcançar o divino, libertar a alma dos constrangimentos terrenos. Não por acaso o projecto é inspirado num padre, e a busca do éter ecoa a tradição esotérica da elevação da alma. Contudo, Saramago investe ao mesmo tempo no potencial utópico e secular do voo: é libertação dos corpos explorados, possibilidade de ruptura com o destino imposto pelo poder.

A Passarola é também uma ponte entre mundos — terra e céu, natural e sobrenatural, poder régio e povo anónimo — e, nesse trânsito, desafia hierarquias existentes, permitindo o reencontro do técnico (máquina), do místico (vontades) e do artístico (música). Ao utilizar energias colectivas recolhidas por Blimunda, afirma-se que o voo não é individual — é êxito que só se alcança com o contributo dos muitos, muitas vezes anónimos.

Politicamente, há uma tensão constante: o sonho da Passarola serve de espetáculo ao rei, alimentando a ilusão de progresso sob o mecenato régio, mas ao mesmo tempo revela a expropriação do trabalho e da esperança dos mais humildes. A máquina voadora não é só prodígio, é também crítica ácida à manipulação do Estado e à ilusão de que bastaria tecnologia para resolver misérias sociais.

O fim do episódio — a realização precária do voo, a seguir-se a doença e a dispersão dos protagonistas — revela a ambivalência fundamental: todo progresso traz riscos, toda utopia um preço. O voo torna-se símbolo simultâneo de esperança renovadora e de advertência quanto ao custo de sonhar demasiado alto ou demasiado sozinho.

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VII. Estilo, Linguagem e Efeitos Poético-Narrativos

Saramago arquitecta a narrativa com recursos estilísticos muito próprios: frases longas, pontuação aberta, diálogos inscritos na prosa, construindo uma voz quase oral e meditativa. O efeito é duplo: aproxima o leitor do acontecimento, desdramatizando o épico, e oferece espaço à ironia, ao humor subtil que perpassa até os episódios mais solenes (“Será isto saber voar, ou apenas querer voar?”).

A descrição sensorial, como na montagem das esferas de âmbar ou na imersão da cura musical, serve para materializar no texto aquilo que, do ponto de vista narrativo, só podia ser maravilhoso: sentimos o peso dos materiais, o brilho do sol, o arrepio do voo. O narrador intervém frequentemente, ora metalinguisticamente (“E agora pergunto eu se…”), ora em comentários de natureza moral e política.

Esta mescla de maravilha com desencanto revela a dimensão crítica da obra: Saramago constrói uma mitologia doméstica de Portugal, em que ao mesmo tempo celebra o potencial do povo e evidencia os limites impostos pelo poder, pela superstição e pelas cicatrizes do real.

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VIII. Leituras Críticas e Comentários

*Memorial do Convento* tem sido analisado sob múltiplas perspectivas. António José Saraiva salienta a dimensão mítica do romance, ecoando as tradições de voos impossíveis como metáfora da superação da condição humana. Já Maria Alzira Seixo destaca a crítica social e política, interpretando a Passarola como denúncia da exploração e manipulação do povo por elites.

Há também quem sublinhe o papel da linguagem, como Isabel Pires de Lima, que vê na reescrita poética de Saramago uma postura pós-moderna frente à história nacional. Outros, criticamente, podem sugerir que a Passarola não passa de fantasia escapista, esquecendo a análise do poder. No entanto, é a coexistência desses planos — mito, crítica, linguagem — que consagra o romance como obra-prima de ambiguidade e atualidade. Saramago propõe à sua maneira a ideia barroca: “Tudo é duplo, e nunca a verdade se encontra num só polo.”

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IX. Conclusão

A construção da Passarola em *Memorial do Convento* sintetiza, num só episódio, as maiores ambições e contradições de uma época: o desejo de transcendência, o engenho da ciência, o poder redentor da arte e o custo social da utopia. Na fusão de materiais palpáveis e energias invisíveis, Saramago ensina-nos que qualquer projeto coletivo carece não só de braços e saber, mas do impulso profundo das “vontades” partilhadas e do contributo de todos, mesmo dos mais anónimos.

Entre o maravilhamento pelo progresso e a advertência sobre os perigos do poder, a Passarola voa uma só vez — suficiente para deixar no imaginário nacional a imagem de que o sonho é possível, ainda que nunca seja gratuito. Mais do que um feito técnico, a Passarola é lição ética: alerta para a imprescindibilidade do coletivo e para as ambiguidades de todo o acto de criação. Assim, do chão ao céu, a máquina de Bartolomeu Lourenço continua a lançar a velha interrogação portuguesa: podemos voar, mas com que preço, e ao serviço de quem? Fica-nos a esperança, mas também a desconfiança, de que todo voo é começo e fim de um novo memorial.

Perguntas de exemplo

As respostas foram preparadas pelo nosso professor

Qual o simbolismo da Passarola em Memorial do Convento?

A Passarola simboliza a utopia coletiva, a fusão entre técnica, misticismo e arte, e reflete o desejo de transcendência e os limites do progresso numa sociedade marcada por contradições políticas e sociais.

Como a técnica e o misticismo influenciam a Passarola em Memorial do Convento?

A Passarola resulta da combinação de engenho técnico, saber científico e forças místicas, mostrando que o sucesso depende tanto do conhecimento quanto das vontades e esperanças humanas.

Quem são os principais envolvidos na construção da Passarola em Memorial do Convento?

Padre Bartolomeu Lourenço, Baltasar Sete-Sóis, Blimunda Sete-Luas e Domenico Scarlatti destacam-se pelos seus saberes, força de trabalho, dom místico e contributo artístico.

Que materiais e "combustíveis" formam a Passarola em Memorial do Convento?

A Passarola é feita de madeira, âmbar, ímanes e cordas, mas o seu verdadeiro "combustível" são as vontades humanas recolhidas por Blimunda, energia espiritual que possibilita o voo.

Qual a mensagem central transmitida pelo voo da Passarola em Memorial do Convento?

O voo representa a esperança de transformação coletiva, mas também alerta para o preço do sonho e dos limites do progresso individual e social face à opressão e ao poder.

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