Análise crítica do poema 'Contemplo o que não vejo'
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 22.01.2026 às 2:43
Tipo de tarefa: Análise
Adicionado: 18.01.2026 às 11:39
Resumo:
Explore a análise crítica do poema Contemplo o que não vejo e compreenda as interpretações, símbolos e emoções que enriquecem esta obra literária. 📚
Contemplo o que não vejo – Análise do Poema
Introdução
No vasto panorama da poesia portuguesa, obras que exploram a complexidade do sentir, do imaginar e do existir mantêm uma relevância perene, transcendendo modas literárias e contextos históricos. *“Contemplo o que não vejo”* surge como um desses poemas emblemáticos, seja ele de autoria conhecida ou parte de uma tradição mais anónima, que desafia o leitor a debruçar-se sobre as fronteiras ténues entre perceção e ilusão, presença e ausência, sensação e vazio. O título encerra em si um paradoxo provocador, apresentando de imediato o tema central: a contemplação daquilo que não se alcança de modo direto pelos sentidos. Trata-se de um convite a habitar o espaço do imaginado, do não vivido, ou até mesmo do que é interditado pela própria existência.A análise deste poema reveste-se de particular relevância pela sua abordagem sensível a uma problemática da condição humana: o confronto entre o mundo exterior e a irredutível interioridade do sujeito. Num tempo marcado por incertezas e por um crescente sentimento de isolamento, inquietações como a perceção do “eu” perante a realidade exterior, as fronteiras entre sonho e vigília ou as angústias existenciais são já matéria corrente para os estudantes portugueses contemporâneos. A universalidade destas questões é, pois, a razão de fundo para a presente análise.
Propõem-se, assim, três grandes objetivos neste ensaio: desvelar as múltiplas camadas interpretativas do poema, evidenciando a riqueza dos seus símbolos e a subtileza da sua linguagem; examinar o modo como a forma poética serve o conteúdo filosófico e emotivo; e, finalmente, avaliar o impacto psicológico e emocional que o texto pode suscitar no leitor atento.
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Contextualização e Enquadramento Poético
Para compreender plenamente a dimensão deste poema, é fundamental inserir a obra no contexto da lírica portuguesa que, especialmente desde o início do século XX, explora de forma cada vez mais profunda a interioridade humana. Movimentos como o Modernismo, encabeçado por figuras como Fernando Pessoa – cujo desdobramento de personalidades e universos interiores tornou-se canónico –, ou ainda o Neorrealismo, onde a inquietação existencial surge com frequência, criaram condições para o surgimento de um discurso poético preocupado com limites, impossibilidades e com o sentido do ser.A escolha de uma linguagem enxuta, marcada por versos livres e desprovidos de rima, aproxima o texto de tendências modernistas e pós-modernas, onde o tom meditativo e quase confessional serve de palco a estados de alma difusos e ambíguos. O poema inscreve-se, assim, numa tradição que inclui nomes como Sophia de Mello Breyner Andresen, cuja poesia frequentemente confronta o visível e o invisível, ou Eugénio de Andrade, para quem o mundo exterior é frequentemente metáfora do fluxo íntimo das emoções.
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Análise Temática Aprofundada
O “Muro” como Símbolo Polissémico
O elemento central e mais incisivo do poema é, sem dúvida, a referência ao muro. Este símbolo, recorrente na lírica portuguesa – basta evocar *Muro do Tempo* de David Mourão-Ferreira ou os muros físicos e psicológicos em “Mensagem” de Pessoa –, ultrapassa aqui o seu valor literal. Não é apenas uma parede que separa dois espaços tangíveis, mas antes a materialização de uma barreira interior, um limite àquilo que se pode alcançar em termos psicológicos, emocionais e filosóficos. No poema, o muro é simultaneamente obstáculo físico e representação do intransponível dentro de si, a linha traçada entre o ser consciente e as vastidões do inconsciente.Esta dualidade traduz-se na postura ambígua do sujeito poético: ao mesmo tempo que se encontra detido por esse muro, sente-se misteriosamente fascinado ou atraído pelo horizonte que ele esconde. Assim, a imagem do muro encerra uma tensão constante entre confinamento e desejo de transgressão, entre passividade e impulso de descoberta.
O Contraste entre Exterior e Interior
A natureza assume, nesta composição, o papel de contraponto ao espaço fechado do interior. O céu amplo, as árvores, o rumor distante das folhas, tudo isto perfaz um cenário de liberdade, movimento e vitalidade. No entanto, o sujeito poético é incapaz de realmente participar dessa dança natural: vê, imagina ou idealiza, mas não toca, não vive plenamente. Surge assim um agudo sentimento de desencontro: o exterior é simultaneamente promessa e impossibilidade.Esta oposição é uma das mais ricas da poesia portuguesa, desde a “interioridade solar” de Sophia até à “solidão rodeada de luz” em Herberto Helder. No poema, o sujeito projeta na natureza os seus próprios anseios e limitações – o céu vasto converte-se em símbolo das suas próprias ambições sufocadas, e o rumor das folhas serve de eco ao movimento interior das suas inquietações.
A Divisão entre o “Ser” e o “Não Ser”
No plano mais abstrato, o poema dramatiza a guerra latente entre o sentir efetivo e o mero imaginar. Ao afirmar que não sente tristeza, mas apenas “contempla” uma ausência ou um vazio, o sujeito remete para uma profunda cisão: ainda que tenha consciência da sua própria tristeza ou ansiedade, está emocionalmente distante delas, como se habitasse um corpo estranho a si mesmo.Este paradoxo remete para clássicos temas filosóficos. Já Camões, em versos como “Triste de quem não sente / Sentimentos de pesar”, abordava a noção de uma existência anémica, onde o sofrimento é pressentido e não vivido. No caso do nosso poema, a incapacidade de sentir pode ser interpretada como forma aguda de alienação ou dissociação, sintomas hoje facilmente reconhecíveis a quem estuda psicologia.
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Análise da Linguagem Poética e Figuras de Estilo
Escolha Vocabular e Imagens
O vocabulário do poema é marcado por palavras simples, de uso corrente, porém de alta carga emocional: silêncio, muro, ausência, folha, céu. A escolha destas palavras cria uma ambiência de sobranceria, quietude e leveza. Simultaneamente, as imagens veiculadas contrastam com a realidade estagnada do sujeito: a leveza do vento nas folhas, o céu que “chama” para além do muro, tudo sugere movimento, mas esse movimento está interdito ao sujeito que permanece imóvel.Este jogo entre o estático e o dinâmico cria uma tensão quase palpável, reforçando o tom de melancolia contida que perpassa todo o poema.
Uso de Figuras de Estilo
A força metafórica do poema assenta, em primeiro lugar, na imagem do muro, já analisada. Outras metáforas – como o céu “grande” e o movimento “em vaivém” das folhas – reforçam o sentido de desproporção entre o desejo e a possibilidade de realização. Há ainda sinestesia no modo como o sujeito mistura percepções físicas e sensações espirituais: o silêncio ganha uma dimensão táctil, as folhas traduzem um inquieto desejo de vida interior.Notável é também a personificação da tristeza: a tristeza surge como uma entidade à qual o sujeito é alheio, um fenómeno que “não sente”, mas que, paradoxalmente, o define. Esta ausência-presença é intensificada por um ritmo lento, pausado, marcado por quebras, que mimetizam o próprio estado emocional de quem fala.
Estrutura e Ritmo
A ausência de rima contribui para a sobriedade e interiorização do texto. O ritmo é deliberadamente arrastado, com largas pausas entre imagens, conduzindo o leitor a um estado quase meditativo. Esta cadência lenta permite que cada palavra ecoe e ressoe no vazio do poema, como se se tratasse de um suspiro prolongado.---
Reflexão Filosófica e Psicológica
O Muro e a Condição Humana
O poema pode ser lido como metáfora ampla da condição humana: todos nós enfrentamos, invariavelmente, muros invisíveis que limitam o nosso conhecimento, os nossos afetos e até a própria realização pessoal. Philosophicamente, este tema já foi tratado por Miguel Torga, ao referir o “universo do impossível” que acompanha o homem rural das suas narrativas. O “muro” do poema espelha a impossibilidade última de nos conhecermos totalmente e de acedermos plenamente ao mundo, um conceito caro à fenomenologia de filósofos como Husserl.A Ausência de Sentimento e o Vazio Existencial
O sujeito poético vive uma condição de cisão: observa o vazio, tem consciência dele, mas não o sente diretamente. Este fenómeno é facilmente identificável no quadro clínico da depressão ou de certos estados ansiosos: sujeitos que, mesmo tendo sensações de angústia, se percebem desprovidos de emoção, como se a realidade emocional lhes fosse vedada. Esta experiência, incomunicável por via racional, encontra na poesia o seu canal privilegiado: aqui, o “não sentir” é, paradoxalmente, sentido e tornado comunicável.---
Impacto Emocional e Mensagem Final do Poema
Experiência do Leitor
Ler este poema é embarcar numa viagem introspectiva: o leitor é conduzido não só a reconhecer os seus próprios “muros” interiores mas também a ponderar sobre a natureza das emoções que, por vezes, parecem escapar ao nosso entendimento. A atmosfera do texto predispõe à melancolia, mas também a uma esperança tímida, quase oculta: o muro pode ser símbolo de intransponibilidade, mas o facto de o contemplar é, já, uma forma de começar a enfrentá-lo.Possíveis Interpretações Finais
O muro pode permanecer como obstáculo insuperável para alguns, ou converter-se, para outros, em desafio a ultrapassar. O poema deixa em aberto este duplo caminho. Sugerir que a angústia pode ser ponto de partida para o autoconhecimento alinha-se com a leitura de poetas como Ruy Belo, que tantas vezes viram na inquietação existencial um trampolim para maior compreensão de si.---
Conclusão
A análise deste poema revela uma teia intricada de sentidos, sensações e símbolos. Nele, o muro excede o seu valor material, convertendo-se em chave interpretativa para questões filosóficas e existenciais intemporais. A linguagem depurada, o uso magistral de imagens e a estrutura cadenciada servem de suporte a uma viagem introspectiva que cativa e inquieta.O valor universal do poema reside na sua capacidade de refletir inquietações ancestrais de modo pessoal e intransmissível, mantendo-se sempre atual. Mais do que descrição de um estado de alma, trata-se de um convite ao leitor: a poesia, ao dar forma ao “invisível”, desafia-nos a aceitar o mistério da vida e a procurar sempre novos caminhos para o autoconhecimento.
Expressar o que não se vê ou sente diretamente é, talvez, o dom maior do poema — e é também, porventura, a tarefa da literatura: tornar visível o invisível, voz o silêncio, emoção o vazio. Ao leitor resta o desafio de continuar essa busca, seja pela palavra, seja pelo olhar atento ao mundo que se esconde para lá dos seus próprios muros.
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Sugestões para Aprofundamento
Para ir além desta análise, sugiro que cada estudante tente escrever um pequeno poema a partir do conceito de “muro interior”, procurando dar forma e palavra às suas próprias travessias emocionais. Em contexto de sala, um debate sobre os “muros” pessoais — na adolescência, na escolha de cursos, nas relações familiares — pode trazer à tona experiências semelhantes às do sujeito poético.Leituras complementares recomendam-se obras como *O Livro do Desassossego* de Bernardo Soares (heterónimo de Pessoa), onde a dificuldade de sentir e a observação do vazio interior são tema recorrente; ou ainda poemas de Al Berto, onde a fronteira entre interior e exterior é sucessivamente questionada.
Assim, a poesia cumpre o seu papel mais nobre: desafiar, inquietar, mas também iluminar o que há de mais secreto no ser humano.
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