Peste Negra: composição narrativa de uma jovem freira portuguesa
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 24.01.2026 às 18:04
Tipo de tarefa: Redação
Adicionado: 21.01.2026 às 14:38
Resumo:
Descubra a Peste Negra através da narrativa de uma jovem freira portuguesa e compreenda os impactos sociais e emocionais desta epidemia histórica.
Peste Negra – Composição
Introdução
No correr do século XIV, um acontecimento abalou de modo irremediável o panorama social e cultural europeu: a Peste Negra. Esta epidemia, que assolou quase todo o continente entre 1347 e 1351, marcou profundamente o imaginário coletivo e deixou traços indeléveis nas vidas das populações. Mais do que um flagelo sanitário, foi também responsável por convulsões sociais e espirituais, alterando modos de viver, crer e sentir. Quando revemos esse período macabro, não o fazemos apenas como exercício académico: compreender a Peste Negra é crucial para perceber a natureza humana perante o medo, o desespero e, por vezes, a esperança. Nos livros de História, muitos números frios e descrições se acumulam, mas raramente se dá voz à experiência vivida. Por isso, nesta composição, proponho-me a narrar através dos olhos de uma jovem freira portuguesa, fictícia, mas inspirada nas muitas que realmente serviram de pilar às comunidades aterradas. Entre as paredes húmidas de uma aldeia perdida de Portugal, tentarei ilustrar não só os sintomas da doença, mas também as emoções, crenças e quotidianos destroçados pela pandemia.O Ambiente e o Cotidiano na Aldeia durante a Peste Negra
Descrição da aldeia
A alvorada chegava, vazia, a cada dia. Da janela do convento, avistava as ruas de pedras mal calcadas, cobertas pela neblina densa, onde já raras eram as figuras caminhando. Os sons habituais – os berros das cabras, o pregão do padeiro, as conversas das mulheres junto ao poço – esfumaram-se. Restava, sobretudo, o silêncio e, nalguns momentos, um lamento perdido levado pelo vento. A ausência daqueles que davam vida à aldeia era mais pesada do que o frio que gelava os ossos nas madrugadas pós-inverno.As portas estavam fechadas, algumas marcadas com uma cruz preta, enquanto os gatos vadios, esquecidos dos donos, vagueavam famintos à procura de migalhas. O mercado, outrora animado, transformara-se num espaço fantasmagórico, apenas povoado por corvos e cães que reviravam trapos abandonados. Tão silencioso e desprovido de vida,o cenário parecia ter decaído num luto interminável.
Condições sanitárias e primeiros sintomas da doença
A peste anunciava-se com uma febre violenta, suores e arrepios, tosse manchada de sangue. A seguir, as manchas negras – nódulos inchados nas axilas e virilhas – surgiam como sinais fatais, selando o destino do infeliz. As vítimas sucumbiam em poucos dias, e rapidamente o medo contagiou ainda mais depressa do que o próprio mal.A aldeia transformou-se num campo minado de desconfianças: vizinhos evitavam-se, crianças eram mantidas reclusas, e não raras vezes vi mulheres a empurrarem familiares para fora de casa ao primeiro sinal de manchas suspeitas. Os poucos que se dispunham a cuidar dos doentes muitas vezes ficavam também contaminados, acabando por desaparecer num silêncio abrupto.
Reações da população
O medo minava a razão. Por todo o lado, multiplicavam-se gestos de puro desespero: mães abandonando filhos, homens refugiando-se nas matas, fugindo do olhar dos vizinhos e dos suspiros dos agonizantes. Alguns, resignados, tentavam afastar o infortúnio com pequenos rituais: penduravam saquinhos de alfazema ao pescoço, queimavam ervas aromáticas nos cantos das casas, ou benzendo-se avidamente diante do crucifixo. Porém, todas essas tentativas, embora compreensíveis, raramente serviam de escudo eficaz contra a avassaladora força da doença.Crenças e Tentativas de Explicação da Peste Negra
A visão religiosa
Dominava uma forte convicção de que a peste era um castigo enviado por Deus, punindo os pecados dos homens. Sentia isso no murmúrio constante das orações desesperadas, nos jejuns impostos por padres e nas processões humildes de fiéis que passavam, entre lágrimas e cantorias soturnas, pelas ruas quase vazias. Era a fé que restava como último reduto, quando as forças humanas fraquejavam e já pouco mais havia a tentar.No convento, a nossa tarefa era dupla: cuidar, na medida do possível, dos moribundos e, sobretudo, confortar almas, tentando suavizar revoltas e animar a esperança numa salvação futura. Recordo-me do sermão breve mas vibrante do nosso pároco, que ecoava noturno dentro da pequena igreja: “Talvez não o entendamos agora, mas o sofrimento purifica... que Deus seja misericordioso com os fiéis”. Mas nem todas as palavras, nem mesmo as mais inspiradas, conseguiam silenciar o medo que se instalava nos corações.
Crenças populares e superstição
As explicações abundavam: houve quem jurasse que a peste vinha do ar contaminado, razão pela qual se penduravam panos embebidos em vinagre nas janelas, esperando que os males se esquecessem daquela morada. Outros atribuíam a causa a forças maléficas, inveja de vizinhos, bruxarias. Não faltavam bruxos e curandeiras que, em troca de pão e promessas, entregavam amuletos improvisados, pulses de espadaña, ou água benta misturada com ervas da serra.Entre a população, a fronteira entre fé e superstição era difusa. Por vezes, depois do culto, certos fiéis pediam que lhes benzesse pequenos objetos ou “rezas fortes” para afastar o mal. Todos ansiavam por explicações e saídas, mesmo quando a razão parecia ter desertado da aldeia.
Impacto Social, Familiar e Pessoal
Rupturas no seio familiar
O que mais doía não era apenas a morte – era o desfazer das famílias. Crianças órfãs vagueavam, só sobrevivendo graças à caridade das freiras e das poucas almas generosas restantes. As mães, se não caíam logo, definhavam de tristeza ou de fome. O papel dos jovens mudava; muitas meninas e rapazes, órfãos antes do tempo, tornavam-se cabeças de família, tendo de cuidar dos irmãos, de plantar a horta, de manter a esperança contra tudo o que sabiam.Entre as mulheres, via-se um esforço silencioso, determinado: eram as últimas a fugir, demasiadas vezes as únicas a velar os mortos e a tentar salvar os vivos. Os homens, menos presentes nas casas, lutavam entre o medo e o dever, mas também eram levados, um a um.
A experiência pessoal da narradora
Ainda me recordo do momento em que a peste entrou em minha casa. O meu pai, camponês magro mas vigoroso, começou com uma tosse sórdida numa manhã de Abril. Ao entardecer, surgiram-lhe as primeiras manchas e, dois dias depois, a febre tomou-lhe tudo. Segui o ritual de cuidar dele, usando compressas de água fria, mas quase sem esperança. O cheiro da morte, indescritível, invadiu o quarto.O meu irmão, adolescente, acompanhou-o pouco depois, carregando no rosto uma mistura de incompreensão e medo. Fiquei sozinha, vestida do hábito, tentado em vão manter o pequeno convento ao serviço dos outros. Creio que a tristeza maior não veio apenas da perda, mas da ausência de ritual – enterros apressados, oração murmurada, lágrimas sufocadas.
Apesar disso, obriga-me a fé que me foi incutida desde a infância a levantar todos os dias, a calçar as sandálias frias e acender a vela diante do altar. A dor ensina a humildade e aprofunda a compreensão de que tudo, mesmo a vida, é efémero.
A Realidade da Morte e do Enterro na Pandemia
Confrontar a morte diária
A aldeia ficou cercada de morte. Corpos abandonados amontoavam-se junto às praças, transportados às pressas em carroças por coveiros resignados ao seu próprio fim próximo. Já ninguém chorava alto, por medo ou cansaço. Os funerais tornaram-se mínimos, muitas vezes reduzidos a um breve pároco e uma freira a murmurar orações junto da vala aberta. Muito mudou: cada campa comum era como um testemunho do desespero coletivo.O sentimento coletivo e individual perante a morte
O luto era tão visceral quanto silencioso. Parecia que o tempo parara: todos se moviam com lentidão, evitavam olhar-se nos olhos. A esperança, ténue, misturava-se a um estado quase de entorpecimento emocional. No íntimo, cada um fazia a sua despedida de tudo o que conhecia, aceitando que nada voltaria a ser igual. Era esta aceitação forçada da transitoriedade da vida que mais marcas deixaria, quiçá para sempre.Conclusão
A Peste Negra foi muito mais do que uma doença – foi um drama humano, social e espiritual, de uma escala que poucas vezes se repetiu na História. Recordá-la é fundamental, não apenas para honrar os que pereceram, mas para perceber como a humanidade, mesmo nas trevas, soube encontrar alguma claridade: nas pequenas solidariedades, nos atos de entrega, na fé que resistiu às desilusões.Hoje, olhando de longe e aprendendo com os ecos desses tempos, importa retirar lições: a fragilidade da vida, a força da compaixão, o valor da esperança perante a adversidade. Tal como na Idade Média, também nós, perante crises e infortúnios, somos desafiados a encontrar sentido, humanidade e solidariedade, mesmo quando tudo parece perdido.
A memória da Peste Negra, assim, não é só lamento; é também advertência e convite a sermos, sempre, resilientes e humanos, lembrando que, em todo sofrimento, germina a possibilidade de nos reencontrarmos enquanto comunidade, enquanto gente. É esse fio invisível de esperança e compaixão que teimo, enquanto freira e enquanto filha deste vale assolado, em manter aceso no coração das pessoas.
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