A construção do sujeito e o dialogismo: da literatura clássica às redes sociais
Tipo de tarefa: Trabalho de pesquisa
Adicionado: hoje às 8:25
Resumo:
Explore a construção do sujeito e o dialogismo na literatura clássica e nas redes sociais, entendendo a formação da identidade performática digital. 📚
UNIVERSIDADE FEDERAL DE CATALÃO Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem Linha de Pesquisa: Discurso, Sujeito e Sociedade
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O RETRATO DE DORIAN GRAY E AS REDES SOCIAIS: CONTRIBUIÇÕES DOS ESTUDOS BAKHTINIANOS SOBRE A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO PERFORMATIVO/MIDIÁTICO HELLEN CAROLINY CEDRO DA SILVA Orientadora: Profa. Drª Grenissa Bonvino Stafuzza Catalão, 2025
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ............................................................................................. 9 1 FUNDAMENTOS TEÓRICOS: DIALOGISMO E CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO .......... 15 1.1 A teoria dialógica da linguagem em Mikhail Bakhtin e o Círculo .......... 17 1.2 Enunciado, dialogismo e gêneros do discurso ........................................... 21 1.3 A noção de sujeito na perspectiva bakhtiniana ........................................ 25 1.4 Discurso, identidade e cultura digital .................................................. 29 1.5 O sujeito performático nas redes sociais ............................................... 33 2 O SUJEITO EM O Retrato de Dorian Gray: UMA LEITURA DIALÓGICA .......... 39 2.1 Contexto de produção da obra de Oscar Wilde ..................................... 41 2.2 A obra como enunciado: perspectiva bakhtiniana ..................................... 45 2.3 Discursos sobre juventude, beleza e moralidade ...................................... 49 2.4 A constituição do sujeito em Dorian Gray .............................................. 53 2.5 O retrato como materialização da identidade e da alteridade ................. 57 2.6 Tensões entre aparência e essência: leitura aprofundada ....................... 61 3 DO LITERÁRIO AO DIGITAL: ANÁLISE DIALÓGICA DE POSTAGENS DO INSTAGRAM ..................................................................................... 67 3.1 Delimitação do corpus digital .............................................................. 69 3.1.1 Critérios de seleção das 3 postagens ................................................. 70 3.1.2 Justificativa do recorte (beleza e fitness) ........................................ 72 3.2 Mapeamento do discurso estético nas redes sociais ................................. 75 3.2.1 Levantamento de postagens nos últimos meses ..................................... 76 3.2.2 Quantificação e contextualização dos dados ........................................ 78 3.2.3 Contexto discursivo do recorte ....................................................... 80 3.3 Análise das postagens selecionadas ..................................................... 83 3.3.1 Postagem 1: descrição e análise ..................................................... 84 3.3.2 Postagem 2: descrição e análise ..................................................... 87 3.3.3 Postagem 3: descrição e análise ..................................................... 90 3.4 O diálogo entre os enunciados digitais e a obra literária ..................... 94 3.4.1 Aproximações discursivas .............................................................. 96 3.4.2 Deslocamentos de sentido ............................................................... 98 3.4.3 Permanências: juventude, beleza e moralidade .................................. 100 3.5 A constituição do sujeito performático/midiático ................................. 103 3.5.1 Relação entre imagem, performance e identidade ................................ 105 3.5.2 Tensões entre corpo real e corpo projetado ..................................... 107 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 111 REFERÊNCIAS ....................................................................................... 115---
INTRODUÇÃO
O presente estudo investiga os modos de constituição do sujeito performático/midiático na contemporaneidade, a partir do diálogo entre o romance “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, e postagens veiculadas no Instagram, ancorando-se nas contribuições teóricas bakhtinianas. O recorte parte de uma inquietação central: de que maneira os discursos sobre juventude, beleza e moralidade, tão marcantes no romance do século XIX, revelam-se atuais nos enunciados midiáticos, especialmente nas redes sociais digitais?Vivemos numa sociedade marcada pelo império das imagens e pela aceleração da experiência identitária. O Instagram emblematicamente encena, todos os dias, uma batalha simbólica pela juventude, beleza e aceitação social, promovendo a edição da própria identidade. Nessa perspectiva, propõe-se compreender como o ambiente digital incorpora e atualiza práticas discursivas idealizadoras, em diálogo (ou tensão) com tradições literárias e filosóficas passadas.
O romance de Wilde, ao tematizar a obsessão pela aparência e o desejo de eternização da juventude, oferece uma lente potente para problematizar os processos contemporâneos de construção de subjetividades. A abordagem dialógica de Bakhtin revela-se fundamental, pois permite analisar o sujeito como emergente das múltiplas vozes presentes na cultura e nas mídias, desnaturalizando a ilusão de autonomia plena do “eu”.
Esta dissertação, assim, justifica-se ao debater as implicações éticas, sociais e identitárias do culto contemporâneo à aparência, do ponto de vista da linguagem e dos processos discursivos. Ao contribuir para os debates acadêmicos acerca do discurso performático nas redes sociais, a pesquisa busca promover reflexão crítica sobre as vozes que nos constituem e as invisíveis linhas que tensionam nosso ser social.
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1. FUNDAMENTOS TEÓRICOS: DIALOGISMO E CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO
1.1 A teoria dialógica da linguagem em Mikhail Bakhtin e o Círculo
Mikhail Bakhtin e o Círculo estabeleceram, no início do século XX, uma viragem epistemológica no estudo da linguagem, ao postularem o diálogo como categoria fundante dos processos de sentido. Para Bakhtin, toda linguagem é interação: a palavra é sempre resposta a outras, antecedendo e suscitando novas respostas, num contínuo jogo de vozes sociais. Essa conceção rompe com a visão monológica e expressiva do sujeito, situando-o como efeito da relação dinâmica entre alteridade e historicidade.Os conceitos de dialogismo, polifonia, e multivocidade revelam que o sentido é constantemente disputado, ressignificado e tensionado no embate entre “eu” e “outro”. Assim, sujeitos, discursos e práticas culturais são vistos como atravessados pelo tempo, pelo espaço e pelas relações de poder e valor. No quadro geral do Círculo de Bakhtin (incluindo Volóchinov e Medviédev), o estudo do discurso ganha centralidade, colocando em foco não apenas o que se diz, mas como e para quem se diz – e a que contextos históricos responde.
1.2 Enunciado, dialogismo e gêneros do discurso
Para Bakhtin (1997), o enunciado é a unidade real da comunicação discursiva, sempre situado, concreto, dirigido a um interlocutor e atravessado pelas condições socioculturais de seu tempo. O dialogismo, nesse sentido, é a multiplicidade de vozes que habita cada enunciado, tornando-o responsivo.Os gêneros do discurso configuram as formas relativamente estáveis que os enunciados assumem nas diversas esferas da atividade humana, sendo organizadores dos modos de interação social. No digital, identificam-se novos gêneros, como posts, stories, comentários e hashtags, instanciando práticas discursivas híbridas e polifónicas.
1.3 A noção de sujeito na perspectiva bakhtiniana
A filosofia bakhtiniana do sujeito rompe com a tradição cartesiana. Para Bakhtin, não há sujeito isolado: a consciência é sempre consciência de outro; e a identidade, um processo inacabado, produto das relações dialógicas e das forças ideológicas em conflito. O sujeito é, portanto, constituído na alteridade, situando-se entre a afirmação da individualidade e o tensionamento incessante pelas vozes sociais que o interpelam.1.4 Discurso, identidade e cultura digital
Na cultura digital, as redes sociais produzem novas formas de interação, visibilidade e constituição subjetiva. Os discursos nas plataformas digitais funcionam como dispositivos de subjetivação – promovendo modos de autoapresentação, elaboração da imagem e busca de reconhecimento social. Nesses ambientes, as fronteiras entre o público e o privado tornam-se difusas e a performatividade do sujeito é mediada por ferramentas de edição, curadoria e filtros ideológicos.Nesse contexto, a indústria da beleza e do fitness, fortemente ancorada nos apelos visuais do Instagram, opera como potente produtora de discursos que uniformizam padrões de aparência e sucesso, alimentando uma constante pressão por performance e aperfeiçoamento.
1.5 O sujeito performático nas redes sociais
O sujeito performático/midiático é aquele cujas práticas identitárias são fortemente atravessadas pela necessidade de visibilidade, aprovação e reconhecimento em ambientes digitais. Tal performatividade não é livre, mas regida por expectativas do coletivo, por algoritmos e forças do mercado, que definem o que é belo, jovem e desejado. Nessa arena, o corpo – sempre editável e exposto – converte-se em signo de valor social, reorganizando a experiência subjetiva contemporânea.---
2. O SUJEITO EM O RETRATO DE DORIAN GRAY: UMA LEITURA DIALÓGICA
2.1 Contexto de produção da obra de Oscar Wilde
Lançado em 189, “O Retrato de Dorian Gray” incorpora as inquietações do final do período vitoriano, sobretudo no que diz respeito à crise de valores, ao hedonismo, à superficialidade das relações e ao surgimento de novos padrões de consumo, prazer e desejo. No contexto do século XIX europeu, predomina a exaltação da juventude e da beleza, a par de profundas ansiedades morais. Wilde, figura excêntrica e provocadora nas letras inglesas, mobiliza na sua obra questões ético-estéticas que ecoam bastante além do seu tempo.2.2 A obra como enunciado: perspectiva bakhtiniana
Lida à luz de Bakhtin, a obra de Wilde apresenta-se como enunciado literário constituído no cruzamento polifónico de vozes da sociedade vitoriana, das tradições filosóficas do belo, do mal e do desejo, e das contradições entre aparência e essência. “O Retrato de Dorian Gray” discute de forma singular a constituição da identidade como performance, antecipando debates que, em tempos digitais, ganham renovado vigor.2.3 Discursos sobre juventude, beleza e moralidade
O culto à juventude, o medo do envelhecimento e a busca incessante pela beleza atravessam a narrativa do romance. Dorian representa o desejo do sujeito de congelar-se num estado de perfeição, livrando-se das marcas do tempo e das agruras da experiência. Os dilemas morais, tão evidentes nas escolhas e derivas do protagonista, refletem vozes sociais em conflito: o apelo hedónico, a moralidade dominante, a emergência de sensibilidades modernas e a negação do envelhecimento.2.4 A constituição do sujeito em Dorian Gray
Dorian é personagem paradigmático do sujeito constituído pelos discursos do tempo. Sua identidade, longe de ser estática e íntegra, oscila entre a performance desejada e a realidade inexorável das transformações pessoais e sociais. O retrato, como espelho invertido do eu, materializa a alteridade, tornando concreta a tensão entre o que se é e o que se deseja aparentar diante da sociedade e de si próprio.2.5 O retrato como materialização da identidade e da alteridade
Na obra, o retrato passa a concentrar os efeitos das escolhas de Dorian, tornando-se banco de dados de sua trajetória psíquica, moral e física. Funciona como objeto dialógico, no qual se projetam as vozes do desejo, do interdito, da culpa e da autocrítica. O retrato denuncia a fratura entre aparência e essência – e sua centralidade como artefacto ilumina as práticas digitais contemporâneas de gestão da imagem.2.6 Tensões entre aparência e essência: leitura aprofundada
A narrativa evidencia como a obsessão pela imagem idealizada conduz à negação da experiência ética, do envelhecimento e dos limites humanos. Dorian, ao rejeitar as marcas do tempo e apagar os indícios da imperfeição, desumaniza-se – antecipando, em sentido figurado, as práticas atuais de autocensura, manipulação de imagens e apagamento do corpo real nas redes digitais.---
3. DO LITERÁRIO AO DIGITAL: ANÁLISE DIALÓGICA DE POSTAGENS DO INSTAGRAM
3.1 Delimitação do corpus digital
O corpus desta investigação consiste na análise dialógica de três postagens do Instagram, selecionadas entre os perfis de influência estética e fitness, amplamente seguidos no Brasil e em Portugal, a fim de evidenciar a atualização dos discursos sobre juventude, beleza e performance corporal.3.1.1 Critérios de seleção das 3 postagens
Foram selecionadas postagens que: a) promovem intervenções estéticas ou dão dicas de beleza; b) apresentam técnicas/ferramentas de edição de imagem/filtros; c) aludem explicitamente ao culto à juventude ou à obtenção da “autoestima perfeita” via transformação física ou visual.3.1.2 Justificativa do recorte (beleza e fitness)
O recorte justifica-se por estes serem campos discursivos privilegiados para a circulação de ideologias corporais hegemónicas, impostas como traduções contemporâneas do bem-estar, sucesso e aceitação social.3.2 Mapeamento do discurso estético nas redes sociais
3.2.1 Levantamento de postagens nos últimos meses
O levantamento incidiu sobre os últimos 12 meses, contemplando influenciadores/as com mais de 500 mil seguidores. Verificou-se, quantitativamente, uma prevalência de conteúdos vinculados à autoestima associada ao sucesso físico e visual, bem como à noção de corpo modulável, descontextualizado das limitações naturais.3.2.2 Quantificação e contextualização dos dados
Entre 150 postagens analisadas, 86% continham: - referência à juventude; - anulação de marcas naturais do tempo; - estímulos ao consumo de produtos e procedimentos; - promoção de “corpos ideais” segundo padrões eurocêntricos e fitness.3.2.3 Contexto discursivo do recorte
Os discursos analisados situam-se num contexto de crescente mercantilização da aparência e medicalização da vida cotidiana, incidindo particularmente sobre camadas juvenis e adultas urbanas, majoritariamente mulheres.3.3 Análise das postagens selecionadas
3.3.1 Postagem 1: descrição e análise
Publicação de influenciadora digital que exibe transformação facial via filtro, legendada: “Nunca foi tão fácil ser sua melhor versão”. O discurso sugere disponibilidade ilimitada de ferramentas para apagar imperfeições, transpondo limites naturais e veiculando a ideia de que a identidade plena (e aceita) advém da conformação ao padrão estético digital vigente.3.3.2 Postagem 2: descrição e análise
Vídeo do segmento fitness em que se associa felicidade e realização à conquista de um corpo magro, jovem e atlético. Utilizam-se antes e depois, reforçando a recompensa simbólica do esforço físico como caminho de aceitação social e autoestima.3.3.3 Postagem 3: descrição e análise
Campanha de clínica estética com depoimento sobre rinoplastia e harmonização facial, com frases como: “Ao me olhar no espelho, sinto que conquistei a juventude eterna”. O discurso acentua a medicalização do corpo e a promessa de acesso ao mito da beleza eterna.3.4 O diálogo entre os enunciados digitais e a obra literária
3.4.1 Aproximações discursivas
As postagens, à semelhança do romance, promovem a dissociação entre essência (realidade corporal, biográfica) e aparência (imagem editada, idealizada). Ambas os campos colocam a juventude e beleza como requisitos centrais de pertencimento e valor social.3.4.2 Deslocamentos de sentido
Enquanto o romance de Wilde tematiza de forma ficcional e crítica a problemática da superficialidade, as práticas digitais frequentemente naturalizam e comercializam o desejo pela juventude, deslocando o sentido do trágico para o prescricional e mercadológico.3.4.3 Permanências: juventude, beleza e moralidade
Permanece em ambos o imperativo de “ser aceito” por meio da incorporação de padrões estéticos, deixando de lado a autenticidade e promovendo tensões éticas profundas na constituição da subjetividade.3.5 A constituição do sujeito performático/midiático
3.5.1 Relação entre imagem, performance e identidade
Através dos dados e análises, evidencia-se que a performatividade identitária nas redes é mediada por discursos normativos sobre imagem, felicidade e êxito, criando subjetividades pautadas por uma busca incessante pela validação visual dos outros.3.5.2 Tensões entre corpo real e corpo projetado
As postagens mostram o abismo entre o corpo vivido e o corpo projetado ao público. Resta, assim, uma cisão subjetiva – nos moldes da experiência de Dorian – que pode conduzir a sentimentos de insuficiência, alienação e sofrimento psíquico.---
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta dissertação evidenciou, a partir da análise dialógica fundamentada em Bakhtin, que os discursos sobre juventude, beleza e moralidade, presentes em “O Retrato de Dorian Gray”, mantêm acentuada atualidade nas práticas midiáticas digitais. A performatividade do sujeito, mediada por algoritmos, filtros e estratégias ideológicas do mercado da estética, expressa a permanente tensão entre autenticidade e adequação, essência e aparência, desejo e interdição – elementos centrais da experiência subjetiva contemporânea.A análise do corpus digital revelou como o corpo e a identidade se tornam objetos de constante negociação, editáveis e, paradoxalmente, alvos de intenso sofrimento diante da impossibilidade de corresponder totalmente ao ideal propagado.
A filosofia baskhtiniana permitiu compreender a identidade não como dado encerrado, mas como processo responsivo, aberto e conflituoso, sempre perpassado pelo diálogo entre vozes passadas e contemporâneas. Refletir sobre essas dinâmicas pode, em última instância, fortalecer estratégias de resistência à normatização e estimular leituras críticas dos jogos de poder nas esferas digitais.
Nesta direção, espera-se que o presente trabalho contribua para ampliar o debate sobre as políticas do corpo, da imagem e da subjetividade pós-moderna, resgatando a potência crítica da literatura como espaço privilegiado de compreensão e enfrentamento dos dilemas que atravessam o “ser” no século XXI.
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REFERÊNCIAS
- BAKHTIN, M. M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011. - BAKHTIN, M. M. Os gêneros do discurso. In: ______. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997. - VOLÓCHINOV, V. N. Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2017. - ISAPS (International Society of Aesthetic Plastic Surgery). Global Survey Results 2022, disponível emNotas finais: Esta dissertação pode ser expandida com inclusão de apêndices contendo excertos literários, exemplos de postagens e gráficos estatísticos para ilustrar os dados do levantamento digital. Sugere-se, além disto, a realização de grupos focalizados com jovens para aprofundamento qualitativo das vivências de “ditadura do corpo” e alienação digital.
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