Personagens de 'Felizmente Há Luar!': análise da luta pela liberdade
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 22.01.2026 às 16:43
Tipo de tarefa: Análise
Adicionado: 21.01.2026 às 7:18
Resumo:
Explore a análise das personagens de Felizmente Há Luar e descubra como simbolizam a luta pela liberdade e justiça no contexto histórico português.
Felizmente Há Luar!: O Significado das Personagens na Luta pela Liberdade
Introdução
*Felizmente Há Luar!*, de Luís de Sttau Monteiro, destaca-se entre as grandes obras do teatro português do século XX, não só pela sua coragem enquanto peça de intervenção, mas também pela densidade e riqueza das suas personagens. Escrito e apresentado em plena ditadura do Estado Novo, com o seu sistema de censura e repressão, o texto serve de denúncia das injustiças perpetuadas pelo poder e dos mecanismos de silenciamento de toda uma sociedade. No contexto da educação portuguesa, esta peça é exaustivamente estudada por retratar, através das suas figuras, os confrontos entre opressão e resistência, traição e integridade, medo e coragem.Neste ensaio, proponho analisar minuciosamente as principais personagens da peça, olhando não só para o seu perfil psicológico, mas também para o papel simbólico e coletivo que elas desempenham no espelho deformante de um Portugal cruelmente dividido. Demonstrarei como cada figura se constitui veículo de transmissão de valores universais — liberdade, justiça, solidariedade — que continuam atuais, e como o conflito entre elas constitui um alerta ainda pertinente para as sociedades modernas. Por fim, sustentarei que, para além de meros instrumentos dramáticos, estas personagens são, na verdade, vozes carregadas de uma densidade ética e histórica sem paralelo no teatro português da segunda metade do século XX.
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Contextualização Histórica e Sociopolítica da Peça
Para compreender em profundidade o alcance das personagens, é essencial recordar o contexto em que a ação da peça de desenrola. A história situa-se nos anos imediatamente a seguir à invasão napoleónica e posteriores lutas entre liberais e absolutistas, período marcado pela fome, pela pobreza extrema e por uma sociedade bloqueada. O “terror” do governo português, liderado por regentes conservadores e submisso a influências estrangeiras como a do oficial inglês Beresford, domina tudo.O poder executivo, representado nas instâncias políticas e religiosas, persegue ativistas, serve-se do medo como método de coação e investe activamente na promoção do obscurantismo. O exemplo de Gomes Freire, personagem central inspirada numa personalidade real da época — o general Gomes Freire de Andrade, acusado de conspiração e executado como exemplo — é apenas a face mais visível de um povo amordaçado. Neste caldo opressivo, as personagens de Sttau Monteiro são espelhos do seu tempo, mas também metáforas universais: representam todas as vítimas e todos os cúmplices do silêncio e do medo.
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Análise Individual das Personagens: Perfis, Simbolismos e Funções Dramáticas
Miguel Forjaz — O Tirano Decadente
Miguel Forjaz surge como figura máxima do poder opressor. A sua personagem é retratada como autoritária, destituída de compaixão, arrogante e profundamente insegura. A corrupção existente na sua conduta é visível tanto nos seus discursos inflamados quanto nas suas decisões, motivadas pelo medo da revolta do povo e pela sua posição frágil na estrutura de poder. Forjaz simboliza o poder corrompido, a decadência de uma aristocracia incapaz de se renovar, e que, temendo o futuro, tudo faz para perpetuar o passado, mesmo à custa da repressão e da violência. Não é por acaso que, em muitos momentos, se nota a sua ansiedade e paranoia, sinais do seu medo interior. Este é o rosto do poder decadente, semelhante ao Marquês de Pombal no seu declínio, fechado numa lógica de autodefesa autoritária. Assim, Forjaz não só representa o antagonista imediato de Gomes Freire, mas simboliza todos aqueles que, cegos pelo privilégio, insistem em negar o sopro de mudança.Principal Sousa — O Fanatismo Religioso
Principal Sousa, representante do clero, destaca-se pelo dogmatismo e pela entrega do altar ao serviço do trono. O seu discurso, carregado de referências à “ordem” e ao “bom costume”, é contradito pelo seu agir calculista e mesquinho. Defensor da ignorância como método de dominação, utiliza a fé como arma, tentando convencer o povo da meritocracia do sofrimento e da passividade diante da injustiça. Com ele, a Igreja, enquanto instituição, aparece como cúmplice da opressão, funcionando como instrumento adicional de repressão social. Isto remete, historicamente, para o papel que sectores do clero desempenharam em Portugal — tanto na época retratada como em períodos posteriores, incluindo a própria ditadura. Principal Sousa é, assim, uma figura grotesca na sua hipocrisia, contrapondo-se ao ideal evangélico e tornando-se símbolo da manipulação religiosa ao serviço do poder temporal.Beresford — O Estrangeiro Oportunista
Representando uma presença constante nas lutas pelo poder em Portugal, Beresford encarna o “outro”: o estrangeiro, o oportunista, aquele que, perante o caos e a miséria dos “indígenas”, procura tirar partido dos acontecimentos. Mais direto e cínico do que os restantes poderosos, faz questão de expor sem pudor o seu desprezo pelo povo e pela instabilidade nacional. Para Beresford, Portugal e os seus habitantes não passam de meios para alcançar fins próprios, sejam eles financeiros ou de prestígio militar. O seu papel, aparentemente secundário, revela antes o modo subtil como interesses externos podem perpetuar o atraso e a dependência de um país, algo bem reconhecido na cultura histórica portuguesa. Rival de Gomes Freire não por princípios, mas por ambição, Beresford é o “estranho” que, por conhecer as fraquezas do sistema, se move melhor que os locais.Vicente — O Traidor Ambicioso
Vicente é, talvez, uma das figuras mais complexas da peça. Enquanto traidor, serve não só de “inimigo interno”, mas representa toda uma classe intermediária, socialmente oprimida, que vê na delação e no colaboracionismo o único caminho para ascender. O seu caráter antiético não se manifesta de forma incondicional: Vicente revela ressentimento, alguma humanidade ferida, mas, sobretudo, uma enorme ambição. Vê-se nele o dilema — comum, infelizmente, a muitos momentos da história portuguesa — entre a lealdade ao povo e a lealdade ao próprio sustento. Ao trair Gomes Freire, Vicente não trai apenas um homem; trai a esperança coletiva de emancipação. Nesta personagem ecoa o tema da “autotraição” que permeia muito da literatura portuguesa, desde as páginas d’*Os Maias* à poesia de Alexandre O’Neill.Manuel — Voz do Povo
É em Manuel, figura da gente simples, que encontramos a expressão mais crua do sofrimento coletivo: a fome, o medo e a resignação. Apesar disso, não é apenas vítima; é também portador de uma sabedoria popular e de uma coragem passiva, ecoando discursos do povo em peças como “O Judeu” de Bernardo Santareno. Manuel tem consciência do seu lugar no mundo, do fosso entre poderosos e humildes, mas cresce em dignidade ao recusar-se a trair, ajudando Matilde e resistindo até onde pode. Tal como outros “jorginhos” anónimos do teatro e do romance nacional, Manuel é, para Sttau Monteiro, a representação viva do povo português — sofredor, resignado, mas esperançoso, sempre aberto à possibilidade de “haver luar”.Sousa Falcão — A Lealdade na Adversidade
Figura distinta pela sua nobreza de caráter e lealdade incondicional, Sousa Falcão serve como exemplo dos que, mesmo conhecendo os riscos, decidem manter-se fiéis aos seus ideais e amigos. Ele personifica a solidariedade real, a capacidade de sacrificar a segurança pessoal por um bem maior. É o tipo de figura que, na história portuguesa, encontramos na resistência ao absolutismo ou no apoio àqueles perseguidos pela Inquisição — o amigo que não se rende nem vende. A sua presença lembra-nos que, mesmo nos contextos mais opressivos, a dignidade humana é possível.Frei Diogo Melo — O Clero Ético
Contrapondo-se ao Principal Sousa, Frei Diogo Melo apresenta-se como símbolo da “igreja dentro da igreja”, isto é, dos poucos que, movidos por uma ética superior, escolhem a integridade. A sua fé é uma fé ativa, que exige justiça e compaixão, e não uma religião de conveniência ou de poder. Nele se revela o potencial da religião como força emancipadora, ao invés de instrumento de submissão. A existência desta personagem recorda que a humanidade social nunca é homogénea e que, mesmo em instituições corrompidas, há lugar para a virtude.Matilde de Melo — Resistência Feminina
Entre as personagens femininas do teatro português, Matilde ganha destaque não apenas pela sua coragem, mas por ser voz ativa na denúncia da injustiça e na defesa do marido, Gomes Freire. Enfrentando autoridades e arriscando a própria segurança, Matilde recusa o papel de vítima passiva. O seu amor, conjugado com um ódio visceral à opressão, faz dela uma personagem multifacetada: mãe, esposa, resistente, acusadora. Num Portugal ainda profundamente patriarcal, Matilde surge como sinal de esperança numa sociedade onde as mulheres não apenas sofrem, mas também combatem. As suas palavras cortantes expõem a hipocrisia e a podridão dos poderosos, mostrando que a resistência não é exclusiva do universo masculino.Gomes Freire de Andrade — Herói Trágico e Inspirador
À semelhança de tantas figuras heróicas da nossa história, Gomes Freire transporta consigo a esperança de um futuro diferente. É um herói romântico, fiel aos seus princípios, determinado, e, no entanto, traído tanto por amigos como pelo povo que queria libertar. Tal como D. Quixote desafia moinhos, Gomes Freire desafia um sistema inteiro, e, tal como as grandes figuras trágicas do teatro clássico, paga com a vida a sua ousadia. A sua morte é, porém, fecunda: inspira uma corrente de resistência que ecoará nos tempos futuros, como nas palavras finais da peça — “felizmente há luar!”Os Populares — O Coro Silenciado
Por fim, não podemos esquecer os anónimos que compõem o coletivo “populares”: gente faminta, amedrontada, mas também irónica e, por vezes, resistente. Com o seu humor agridoce e os seus apartes, fazem lembrar o povo das “tragédias corais” gregas, funcionando como consciência coletiva da sociedade. São eles que apontam as injustiças, que revelam as condições de vida atrozes e as estratégias de sobrevivência, por mais indignas que pareçam. Não têm nome, mas têm voz, e essa voz, embora frequentemente abafada, é essencial para a profundidade dramática da peça.---
Temas Centrais Espelhados nas Personagens
Através de todo este coro de vozes, *Felizmente Há Luar!* traça um retrato claro e inquietante dos grandes temas que atravessam a vida social portuguesa: a tirania e o medo como instrumentos de governo; a corrupção ética de quem detém o poder; a traição — não só individual mas estrutural — como fruto da desigualdade; a resistência, amarga mas teimosa, de quem se recusa a abdicar da dignidade; a ação das mulheres como voz atuante contra a injustiça. Em suma, a peça expõe todas as ambiguidades, contradições e esperanças das sociedades que vivem sob o peso da opressão.---
Importância das Personagens na Estrutura Dramática e na Mensagem
A vitalidade da peça reside na multiplicidade de vozes, nas relações entre personagens que, mais do que indivíduos isolados, são arquétipos de tendências sociais, políticas e culturais. O conflito entre elas permite manter a tensão dramática — sem um Forjaz não haveria Gomes Freire, sem Vicente, a traição não seria exposta, sem Matilde a crítica perderia metade do seu ímpeto. Ao mesmo tempo, figuras secundárias trazem para a cena a dimensão coletiva, histórica e universal da obra. Neste sentido, o texto de Sttau Monteiro serve não só como denúncia circunstancial, mas como reflexão intemporal sobre os riscos da passividade e do conformismo — uma lição ainda atual no mundo contemporâneo.---
Conclusão
Em *Felizmente Há Luar!* — obra maior do teatro português contemporâneo, e parte obrigatória do currículo nacional — as personagens surgem como autênticos símbolos das tensões históricas da sociedade portuguesa, e, simultaneamente, como vozes da denúncia e do apelo à mudança. Nelas se condensam muitos dos dramas do país: o medo perante o poder, a tentação da traição, o heroísmo solitário, a resistência popular e a força feminina. Ao estudá-las atentamente, compreende-se melhor não só a estrutura da peça, mas também a história das lutas portuguesas pela liberdade e dignidade humana. O teatro de Sttau Monteiro mantém, assim, a sua pertinência — pois, enquanto houver injustiça, felizmente haverá luar.---
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