Análise

D. Sebastião em Mensagem: análise do poema de Fernando Pessoa

approveEste trabalho foi verificado pelo nosso professor: 23.01.2026 às 17:20

Tipo de tarefa: Análise

Resumo:

Descubra a análise do poema D. Sebastião em Mensagem de Fernando Pessoa e compreenda o simbolismo e a identidade nacional portuguesa nesta obra.

A Mensagem: Análise do Poema “D. Sebastião, Rei de Portugal”

I. Introdução

Portugal, no início do século XX, atravessava um período de inquietação e de redefinição identitária. O fim da monarquia, a instabilidade política vivida com a Primeira República e a sombra das dificuldades económicas agudizavam um sentimento nacional de crise e de nostalgia em relação ao passado. Neste contexto, Fernando Pessoa surge como uma voz singular da literatura portuguesa, elaborando na sua obra *Mensagem* (1934) um projeto poético que procura resgatar a essência espiritual do país através dos seus mitos fundadores. Mais do que um compêndio patriótico, *Mensagem* propõe uma meditação profunda acerca do destino, do sonho e da identidade de Portugal. Entre os vários símbolos aglutinadores do imaginário nacional, D. Sebastião destaca-se pela sua presença quase lendária, cuja análise, no poema “D. Sebastião, Rei de Portugal”, permite compreender não apenas o universo pessoano, mas também as pulsões mais íntimas do povo português.

D. Sebastião, jovem monarca desaparecido na tragédia de Alcácer-Quibir (1578), tornou-se um dos mais fascinantes mitos nacionais. A vaga incerteza quanto à sua morte e a profunda comoção que provocou na alma coletiva abriram espaço ao surgimento do sebastianismo: uma crença tenaz no regresso do rei, associado à promessa messiânica de renascimento nacional. Ao abordar literariamente esta figura, Pessoa não se limita a um retrato histórico, mas investe na dimensão simbólica e universal do mito, tornando-a chave para a compreensão da identidade portuguesa e das possibilidades do seu futuro.

O presente ensaio pretende analisar o poema “D. Sebastião, Rei de Portugal”, enfatizando a riqueza simbólica da sua linguagem, a articulação única com o sebastianismo e o diálogo com outras manifestações da literatura nacional. Abordaremos o modo como, em Pessoa, D. Sebastião encarna o desejo de elevação de Portugal além da sua “apagada e vil tristeza”, guiando-nos através das sombras do presente até uma possibilidade de reencantamento coletivo.

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II. Enquadramento do Poema na Obra *Mensagem*

A *Mensagem* estructura-se em três momentos essenciais: “Brasão”, onde são celebradas as figuras e símbolos da fundação e expansão de Portugal; “Mar Português”, que glorifica as empresas marítimas, e “O Encoberto”, espaço onde ressoam as energias ocultas da esperança messiânica. O poema “D. Sebastião, Rei de Portugal” está inserido precisamente nesta última parte, sinalizando a passagem do tempo heróico para uma fase de expectativa, de potencial regeneração.

Ao optar por situar a figura de D. Sebastião na secção “O Encoberto”, Pessoa vincula o poema ao núcleo messiânico da lusitanidade: “O Encoberto” não é apenas o rei desaparecido, mas também a amálgama de sonhos, frustrações e esperanças do povo português. Esta parte da obra representa, assim, a tensão entre a ansiedade do reaparecimento do passado glorioso e a necessidade de projeção utópica que alimenta o presente.

D. Sebastião deixa, neste contexto, de ser apenas um protagonista trágico da História para se transformar numa “ideia-força”, no mito organizador que atravessa séculos e gerações, congregando em si os anseios de redenção perante o sentido coletivo de perda.

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III. Análise Literária do Poema

A. Tema Central

O tema dominante do poema reside na dialética entre loucura e grandeza. Fernando Pessoa apresenta D. Sebastião sob “o desígnio de ser louco sem o ser”, reforçando o paradoxo: a loucura sebastianista é, afinal, a maior forma de lucidez – a recusa da mediocridade em prol de um ideal absoluto. O rei, descrito como “o cadáver adiado que procria”, ilustra a dualidade existencial entre vida e morte, ação e estagnação, sonho e realidade.

Existe também um conflito existencial evidente: o poeta, através de D. Sebastião, questiona-se sobre o preço do sonho e da busca pelo absoluto. A grandeza do rei deriva exatamente da sua disposição para sacrificar tudo – até a própria vida – por uma ideia que excede a lógica e o pragmatismo, corporizando o motor da esperança nacional.

Ao mesmo tempo, o poema convoca o sonho do resgate: uma posterioridade reveladora que irá acordar o povo português, ressuscitando-o de uma “apagada e vil tristeza” – clara alusão ao conhecido verso camoniano. A fé no retorno de D. Sebastião converte-se, assim, numa espera ativa, plástica e aberta ao futuro.

B. Simbolismo e Imagens Poéticas

Um dos símbolos mais poderosos do poema é o areal, que evoca a memória da batalha fatal de Alcácer-Quibir, mas também um espaço liminar entre a vida e a morte, entre a esperança e o abandono. O areal representa, simultaneamente, o lugar de sepultura do corpo e de germinação de uma fé: “No areal, onde o rei se dissolve, cresce o mito”. Deste modo, Pessoa transfigura o deserto em génese, assumindo o vazio como condição necessária para a emergência da esperança messiânica.

O contraste entre loucura e razão atravessa todo o poema, conferindo-lhe densidade filosófica. Em vez de ser meramente negativa, a “loucura” de D. Sebastião é exaltada como força vital, pois “vale mais uma loucura sublime/Do que um sonho conformado”. O poeta posiciona o rei no limiar do divino, atribuindo-lhe um perfil profético: não é pela razão ordinária, mas pela ousadia do impossível, que se desenha o futuro.

Destaca-se ainda a emblemática imagem do “cadáver adiado que procria”, alegoria da condição portuguesa: o morto que ainda gera vida, a morte suspensa que alimenta sonhos de futuro. Este verso condensa o núcleo existencial do sebastianismo: um passado que recusa a clausura, ecoando constantemente na imaginação da pátria.

C. Linguagem e Estilo

O poema apresenta uma linguagem com traços marcadamente místicos, densa em antíteses e paradoxos. Frases como “Ser rei é ser sozinho” conjugam a elevação da função régia com a solidão existencial inerente a quem visa o inalcançável. O discurso assume um ritmo quase profético, abdicando da linearidade narrativa para se alicerçar em visões, revelações e enigmas.

Predominam as imagens fragmentadas, como se tentassem captar aquilo que é por natureza incompleto e por essência inalcançável. Este estilo contribui para criar uma atmosfera de mistério e de espera, consonante com o tema do “encoberto”.

D. Conexões Intertextuais

É impossível ignorar a presença dos ecos d’O *Lusíadas* de Camões, onde D. Sebastião surge enquanto herdeiro do ciclo heróico. Pessoa, porém, afasta-se do otimismo racionalista de Camões: enquanto aquele celebra a descoberta como conquista factual, Pessoa propõe a busca do desconhecido como motor espiritual. Há, aqui, um evidente diálogo: o passado é glorificado, mas é necessário ultrapassá-lo por meio de uma nova visão – mais profética do que histórica, mais espiritual do que épica.

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IV. O Mito do Sebastianismo como Estrutura do Poema

A. Origem e Evolução do Sebastianismo

O sebastianismo nasceu do luto nacional causado pela perda de D. Sebastião e rapidamente se disseminou como expressão do inconformismo e da esperança popular. A profecia do seu regresso tornou-se parte estrutural do imaginário português, atravessando tempos de crise e de decadência. Não se trata só de uma espera literal, mas de uma profunda aspiração à redenção da pátria.

B. Relação do Poema com o Mito

Para Pessoa, D. Sebastião é simultaneamente passado, presente e futuro: “No meu silêncio vai comigo/O futuro de Portugal”. A imagem do rei ausente transforma-se em apelo à ação – “quem sonha ereja” –, interpelando cada geração a construir coletivamente a sua própria redenção. O nevoeiro, presença constante nas alusões sebastianistas, simboliza a confusão e o marasmo que caracterizavam Portugal no tempo de Pessoa, mas carrega também a semente de uma iluminação futura.

C. O Papel do Poema no Portugal da Época

O poema foi escrito num tempo de dúvidas e desorientação nacional, em que o regime instaurado carecia de legitimidade e vitalidade intelectual. Pessoa, recusando o conformismo, agarra-se ao mito sebastianista para propor, paradoxalmente, uma esperança: mesmo atravessando o deserto do presente, Portugal poderá, um dia, acordar do seu sono e reencontrar a sua grandeza perdida.

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V. Dimensão Filosófica e Existencial do Poema

A. Dualidade entre Loucura e Razão

O poema propõe uma valorização ética e metafísica da “loucura”: representa a recusa da resignação, um modo superior de ser em que o indivíduo e o coletivo encontram impulso criativo e transcendência. A figura de D. Sebastião, inconsútil e radical, “diz ao tempo: serei diferente”, demonstrando que “só vale a pena viver quem por um ideal se consome”.

B. Reflexão sobre o Ser e a Morte

A expressão “cadáver adiado” relaciona-se com a visão pessoana do ser humano como fragmentário e mutável, sempre à procura de sentido. Tal como o poeta se desdobra em múltiplos heterónimos, o rei morto persiste como figura viva nos sonhos do povo, recusando o fim definitivo.

C. As Faces do Sonho e da Realidade

O texto alterna entre a utopia da ressurreição e a lamentação da sua ausência, criando um permanente vaivém entre o sonho (expressão do possível, força de mudança) e a dura limitação da história (realidade de fracasso, de atraso). A saudade – “esse sonho continuado do impossível” – é, assim, não apenas dor, mas reserva de força transformadora.

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VI. Conclusão

Ao longo do poema “D. Sebastião, Rei de Portugal”, Fernando Pessoa recorre a um complexo sistema simbólico para transformar uma figura histórica num arquétipo nacional. A sua escrita, densa e visionária, coloca-nos perante o dilema do sonho e da resignação, conferindo ao mito sebastianista uma extraordinária atualidade.

Ainda hoje, a imagem de D. Sebastião permanece viva na cultura portuguesa, testemunhando a recusa da mediania e o apelo ao impossível. A mensagem de Pessoa, não circunscrita à sua época, desafia cada geração a revisitar os seus mitos e a discernir neles a semente do futuro. O poema representa, assim, uma autêntica lição de inquietação, de sonho e de inconformismo – qualidades fundamentais para qualquer povo que recuse apagar-se numa “vil tristeza”.

*Mensagem*, e em particular o seu poema sobre D. Sebastião, convida-nos a manter aberta a possibilidade de renascimento coletivo, cultivando a esperança como gesto criador. O estudo desta obra não serve apenas para compreender o passado, mas também para projetar identidades, horizontes e sonhos – razão pela qual a sua leitura permanece absolutamente imprescindível.

Perguntas de exemplo

As respostas foram preparadas pelo nosso professor

Qual a análise do poema D. Sebastião em Mensagem de Fernando Pessoa?

O poema explora a dimensão mítica de D. Sebastião como símbolo da esperança nacional e reflete sobre o desejo de renascimento espiritual de Portugal, utilizando o rei como figura central do sebastianismo.

Qual o significado simbólico de D. Sebastião em Mensagem?

D. Sebastião representa o mito do salvador oculto, a promessa messiânica de redenção e o anseio do povo português por recuperar um passado glorioso perdido.

Como o poema D. Sebastião se insere na obra Mensagem?

O poema integra a secção "O Encoberto" de Mensagem, expressando o núcleo messiânico da obra e simbolizando a transição de uma época gloriosa para um tempo de esperança e espera coletiva.

Quais são os temas principais de D. Sebastião em Mensagem?

Os temas centrais são o paradoxo entre loucura e grandeza, a busca pelo absoluto, o sacrifício em nome de um ideal e a tensão existencial entre sonho e realidade em Portugal.

Em que difere a abordagem de Pessoa ao mito de D. Sebastião?

Pessoa ultrapassa o retrato histórico e investe numa dimensão simbólica universal, tornando D. Sebastião um mito organizador da identidade portuguesa além das limitações do passado.

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