Análise do poema de Ricardo Reis: cada um cumpre o seu destino
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 22.01.2026 às 9:11
Tipo de tarefa: Análise
Adicionado: 19.01.2026 às 10:49
Resumo:
Explore a análise do poema de Ricardo Reis para compreender como o destino molda a existência e a resignação na literatura portuguesa clássica.
Cada um cumpre o destino que lhe cumpre – Análise do Poema
Introdução
O poema “Cada um cumpre o destino que lhe cumpre”, de Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, estabelece desde o título uma proposta imediata de reflexão: o destino é apresentado não como escolha, mas como missão, algo que se exerce — ou se suporta — porque não há alternativa. Enraizado no contexto literário e filosófico português, onde o conceito de destino (“fado”) é central, o poema aborda a eterna questão da inevitabilidade do viver e questiona quantos de nós realmente detêm as rédeas da própria existência.No imaginário português, o destino tem sido visto frequentemente como força maior, presente tanto no fado, género musical capaz de traduzir a alma nacional, como na literatura, desde os lusíadas até às obras mais contemporâneas. Temos, portanto, um contexto cultural onde aceitar o que nos é dado pelo mundo é muitas vezes encarado como sabedoria, e não fraqueza.
A leitura do poema motiva-nos a pensar sobre as limitações do ser humano perante a vida. Assim, este ensaio busca analisar como o texto nos apresenta uma visão resignada, mas serena, sobre o destino, sugerindo que a aceitação consciente do que nos está reservado é, por vezes, um ato de profunda dignidade — e de alguma liberdade interior.
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Destino, desejo e realidade: do conflito à resignação
A dualidade entre destino e desejo
Uma das tensões mais evidentes no poema reside na distância entre aquilo que desejamos e aquilo que nos é dado viver. O sujeito poético parte da premissa de que o ser humano é feito de desejos, mas, paradoxalmente, pouco pode fazer para garantir a sua realização. Quantas vezes, na vida quotidiana, um estudante busca o curso ambicionado mas não consegue vaga, ou um trabalhador empenhado vê o seu esforço irremediavelmente engolido por circunstâncias alheias à sua vontade?Este conflito entre querer e poder é antigo. Nos contos tradicionais portugueses, tantas personagens desejam “ser reis” ou “casar com a princesa”, mas são travados pelo inexorável “assim estava escrito”. O poema, ao reconhecer que “nem tudo o que se quer acontece”, ecoa essa resignação secular, não como derrota, mas como constatação lúcida.
Destino como ordem pré-definida
A imagem do destino, cristalizada no poema através da metáfora das pedras dispostas nos canteiros, remete para uma existência em que cada um tem o seu lugar, atribuído por forças superiores ou por leis naturais incompreensíveis. Não somos senhores do nosso percurso, sugere o texto, mas partes de uma ordem maior: aceitando esse papel, encontramos alguma serenidade.No contexto literário português, esta ideia reverbera n’O Primo Basílio, de Eça de Queirós, onde o deslizar para a tragédia parece, muitas vezes, consequência de algo escrito muito para além das escolhas das personagens. Há, assim, na literatura nacional, uma tradição de olhar o destino como algo que limita fortemente o livre-arbítrio.
A aceitação tranquila: serenidade ou acomodação?
Face ao inultrapassável, o sujeito poético escolhe a serenidade. Não há grito, não há revolta, apenas a quietude de quem observa o rio do tempo a correr e se senta na margem, consciente de que tentar nadar contra a corrente se revela fútil. A atitude é próxima do estoicismo: se não podemos mudar as cartas que nos são dadas, podemos, ao menos, escolher a forma como as jogamos.No entanto, este conformismo é, para alguns, perigoso. Aceitar demasiado docilmente pode transformar-se em passividade: o camponês que nunca tenta mudar de vida porque “não nasceu para mais”, ou o jovem que desiste perante as primeiras dificuldades. No entanto, o poema procura antes sugerir aceitação consciente e não simples resignação cega.
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Análise formal e estilística
Estrutura e simplicidade formal
O texto de Ricardo Reis caracteriza-se por uma estrutura simples, reflexo de uma filosofia clara e depurada. A métrica regular, o vocabulário acessível e o ritmo pausado servem para reforçar um tom quase meditativo, num convite ao leitor para que respire e pense sobre a sua existência.Esta contenção formal aproxima o poema dos clássicos da literatura portuguesa — como os sonetos de Camões — e acentua o seu carácter universal. O que é dito não precisa de adornos, porque a verdade essencial já é, por si só, difícil de aceitar.
Imagens poéticas e símbolos
Talvez a imagem mais poderosa do poema seja a das pedras ao longo do canteiro: a vida composta de lugares fixos que cada um inevitavelmente ocupa. Lembra-nos dos mosaicos portugueses, cada pedra fazendo parte de um todo só belo porque cada elemento permanece no seu lugar pré-definido. A menção ao “Fado” (com maiúscula) e à “Sorte” atribui a estas forças valor quase sagrado, elevando-as acima da mera casualidade.A natureza, frequentemente usada na poesia nacional para traduzir sentimentos humanos, surge como espelho da condição existencial: tal como as árvores não escolhem onde nascer, também o homem raramente controla as grandes linhas do seu percurso.
O tom do sujeito poético
O sujeito que fala é simultaneamente distanciado e envolvido. Escutamos nele uma voz que já desistiu da luta vã, mas mantém curiosidade e espanto face à ordem do universo. O tom, nunca amargo, é de aceitação serena — próximo do conselheiro avô das lendas populares, que tudo observa e tudo compreende. A cadência das frases sugere uma inevitabilidade que acalma mais do que angustia — há algo libertador, afinal, em perceber que nem todas as culpas são nossas.---
Reflexão filosófica e cultural
O fado na cultura portuguesa
Não é possível dissociar este poema do fado nacional — não só musical, mas metafísico. O português acostumou-se, ao longo da História, a lidar com adversidades e a transformar o sofrimento em arte, em música, em poesia. “Fado” vem do latim “fatum”: aquilo que é dito, decretado, estabelecido. Assim como Amália Rodrigues interpreta “Estranha Forma de Vida”, aceitando a dor como parte indissociável da existência, também o poema propõe que carregar o que nos é dado pode ser feito com dignidade.Estoicismo, fatalismo e existencialismo
A filosofia estoica, de que Ricardo Reis se declara seguidor, valoriza a aceitação serena do que a vida traz. É famosa, entre os estudantes de filosofia, a máxima de Epicteto: “Não está em nosso poder o que acontece, mas está em nosso poder como reagimos ao que acontece”. O poema, neste sentido, posiciona-se mais na aceitação do que na rebelião.Contrastando com o estoicismo temos o existencialismo moderno: Sartre e outros argumentariam que o ser humano se faz a si próprio, que pode resistir, escolher, inventar-se. Em oposição, o poema sugere que o alcance do nosso querer é limitado — os ventos do destino são mais fortes do que a vontade individual.
Atualidade do tema
Na sociedade atual, bombardeada por discursos individualistas e motivacionais, a ideia de aceitar o destino pouco seduz. Somos educados, desde cedo, a “fazermos o nosso próprio caminho”, mas frequentemente esquecemos que há limites — sociais, económicos, até acidentais — que não controlamos. Encontrar equilíbrio entre aceitação e ação é desafio diário: saber quando lutar e quando aquietar o espírito.O poema pode ajudar-nos a entender, por exemplo, a frustração de um jovem que não entra no curso pretendido e tem de escolher outra via, ou de alguém que vê projetos ruírem por circunstâncias externas. Aceitar com serenidade, sem abandonar o desejo, é uma lição de maturidade. Porém, é fundamental não confundir aceitação com desistência.
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Conclusão
Através de uma linguagem simples e imagens claras, “Cada um cumpre o destino que lhe cumpre” oferece-nos uma lição profunda sobre a condição humana em Portugal: o reconhecimento de que a nossa margem de ação é curta, mas que podemos, mesmo assim, encontrar serenidade. Destino e desejo estarão sempre em tensão: o homem quer, mas nem sempre pode; o mundo dispõe, o homem resigna-se e, por vezes, transcende.O valor da aceitação, nesta perspetiva, é libertador — não nos exime da luta, mas poupa-nos do sofrimento inútil. Saber ler poesia deste tipo é ganhar, pouco a pouco, ferramentas para enfrentar as contrariedades que a vida inevitavelmente traz.
Em Portugal, muitos autores exploraram o tema do destino: Sophia de Mello Breyner Andresen, nos seus poemas de mar; Almeida Garrett, no drama das suas personagens; e mesmo no teatro popular, como a literatura de cordel. Tudo faz parte do grande diálogo nacional sobre o que é ser e viver neste pequeno país à beira-mar plantado.
Por fim, deixo ao leitor o convite: quem és tu perante o destino? O que lutaste, o que aceitaste? A poesia, como a vida, nem sempre responde — mas ajuda-nos a perguntar melhor.
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Apêndice – Sugestões de estudo autónomo
Para continuar esta reflexão, proponho: - Leitura comparada com poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen (ex: “Mar Novo”, sobre a força do mar e do destino humano); - Exercícios de escrita criativa sobre o tema: “Há algo no meu destino que posso ou não posso mudar?” - Debates em grupo sobre a questão: até onde devemos aceitar e quando devemos lutar contra o que aparentemente nos está reservado?A reflexão sobre o destino, afinal, nunca se esgota. A poesia de Ricardo Reis abre portas a um diálogo que cada geração é convidada a continuar.
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