O Monstrengo em 'A Mensagem': análise e simbolismo de Fernando Pessoa
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 16.01.2026 às 11:36
Tipo de tarefa: Análise
Adicionado: 16.01.2026 às 11:24
Resumo:
Análise de 'O Monstrengo' (A Mensagem): confronto com o medo do mar, rito de passagem nacional, símbolo de coragem colectiva e ambivalência ideológica.
A Mensagem — Uma análise profunda de “O Monstrengo”
No cerne da obra poética de Fernando Pessoa, “A Mensagem”, encontra-se um profundo diálogo entre o povo português e as forças insondáveis do mar, símbolo maior da identidade nacional. Entre os vários poemas que compõem este livro publicado em 1934, “O Monstrengo” destaca-se como momento de intensa condensação simbólica e dramática. É nele que se projecta, num confronto arquetípico, o embate entre o medo primitivo e a obstinada vontade de conquista do desconhecido. Este ensaio defende que “O Monstrengo” não só condensa o conflito psicológico do povo português perante o abismo do desconhecido, mas também o transforma numa afirmação coletiva de determinação e superação — um rito de passagem que transcende o registo histórico e se torna mito fundador. Iremos analisar, por isso, o poema a partir do seu contexto literário, da sua análise formal, das imagens e vozes que o atravessam, bem como da intertextualidade com a tradição épica, para concluir com leituras ideológicas e simbólicas que ampliam o seu alcance.---
Contexto histórico-literário
“A Mensagem” surge na década de 1930, época de ressurgimento do interesse pela história e mito fundadores de Portugal. Após as convulsões do início do século XX — a instauração da República, crise social e política, e fermentação ideológica —, os anos 30 trouxeram um novo apelo à memória nacional. Fernando Pessoa, atento à necessidade de refundar o mito português numa linguagem moderna, constrói, em “A Mensagem”, um mosaico de figuras, símbolos e episódios históricos que reavivam o imaginário dos Descobrimentos.No contexto literário, esta é também uma época de busca por um sentido coletivo pela arte. Face ao cosmopolitismo e à fragmentação modernista das primeiras décadas, muitos escritores portugueses, Pessoa incluído, voltam o olhar para o passado heroico, utilizando-o como matéria-prima para questionar o presente. Neste quadro, a centralidade do mar surge como marca distintiva: oceano ambivalente — berço de oportunidades e fonte de terror. “O Monstrengo” emerge deste clima, concretizando poeticamente a ansiedade nacional perante os limites e a vontade de os desafiar.
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Leitura sintética do poema
“O Monstrengo” narra o momento em que uma criatura terrível, protetora dos confins marítimos, interceta a progressão de uma embarcação. Primeiro, instala-se o espanto diante da sua aparição; depois, o monstruoso ser interroga com voz ameaçadora, reivindicando domínio e lançando dúvidas sobre o direito de passagem. Quem responde é o homem do leme, representante simbólico do coletivo português, que — longe de sucumbir ao medo — afirma a sua determinação em nome do rei e da missão. A tensão constrói-se em três movimentos fundamentais: surpresa, ameaça e resposta afirmativa.---
Análise formal e sonora
Formalmente, “O Monstrengo” é marcado por uma estrutura rítmica quase incantatória. Os versos, de extensão geralmente regular, alternam entre frases curtas e enjambements que remetem ao balançar do mar. Repete-se ao longo do poema a construção: “O monstrego [faz] da noite escura / Ouça o homem do leme responder”. Esta regularidade cria uma cadência ritual, reforçando a ideia de um duelo existencial.Do ponto de vista sonoro, destacam-se as aliterações e sibilâncias — “serra o som do vento”, “chiar das cordas” — que reproduzem o ambiente marítimo e amplificam a atmosfera ameaçadora. As repetições, tanto lexicais como sintáticas, aumentam a tensão, consolidando o efeito de “encantamento” típico do mito recitado junto ao fogo. O uso frequente de reticências e pontos de exclamação acentua a dramatização do confronto, imprimindo ritmo brusco nos momentos de ameaça e maior contenção na resposta do homem do leme. Em conjunto, estes elementos preparam a onda final: a resposta corajosa, sintética, que afirma a passagem.
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Figuras, imagens e vocabulário
As imagens do mar e da noite são centrais: o “fim da terra”, a “noite escura”, o “chiar das cordas”, o “vento negro”. Cada elemento remete à ideia de fronteira, limite e perigo — mar como abismo último. À figura do monstrengo estão associadas palavras que enfatizam a sua dimensão ameaçadora e quase sobrenatural: “grande como o mundo”, “vítreo”, “cruel”, “olhos de cegueira”. O seu discurso é interpelativo, detentor de poder, quase inquisitorial. Pergunta com autoridade: “Quem ousa entrar aqui nos meus domínios?”No vocabulário do poema surgem arcaísmos (“leme”, “quilha”, “velas”) e formas cerimoniais (“Em nome do Rei”) que conferem dignidade e historicidade à cena. As metáforas reforçam disputas de posse: o mar, as cavernas, o espaço não cartografado tornam-se territórios de afirmação simbólica. Assim, é na palavra, no nome do rei, que se combate o pavor do anônimo. As imagens mais marcantes — o “mar sem fundo”, o “monstrengo”, a “caverna” — são, por sua vez, espelhos das perplexidades e coragens do sujeito coletivo português.
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Personagens e vozes
O monstrengo, mais do que criatura física, representa o medo absoluto do desconhecido, o guardião dos limites do mundo — eco de figuras como o Adamastor, mas mais arquetípico, menos pessoal. Ele é a voz inicial, ameaçadora, da incerteza e do interdito. Em contraponto, o homem do leme surge como figura de transição: é o individuo que, pela força da missão, encarna a determinação coletiva. A sua resposta transcende o medo privado: “Aqui ao leme sou mais do que eu: / Sou um Povo que quer o mar que é teu!” A identificação entre o eu individual e o povo inteiro atinge no poema um grau corajoso e quase solene.Ao invocar o rei, o discurso do leme eleva-se do plano pessoal ao nacional. “Mando em nome do Rei!” não é apenas subordinação ao passado: é legitimação da própria viagem enquanto projeto coletivo, passado e presente ao mesmo tempo. Destaca-se em Pessoa a consciência da ambivalência — o leme age enquanto súbdito, mas sua voz é a da coragem renovada do povo.
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Intertextualidade: comparação com Adamastor / Os Lusíadas
A tradição épica portuguesa encontra no Adamastor dos “Lusíadas” um antecessor direto do Monstrengo. Ambos se erguem como obstáculos mitificados às rotas marítimas de Portugal, materializando perigos e dúvidas enfrentadas pelos navegadores. No entanto, Pessoa reinventa o motivo: enquanto em Camões Adamastor é figura trágica, vinculada a paixões e lamentos (“Se é verdade, ó deuses, que o sou fostes...”), em “O Monstrengo” a ênfase recai na dimensão coletiva e na superação psicológica.O Adamastor impõe, em Os Lusíadas, um desafio repleto de pathos pessoal; já o Monstrengo dirige-se menos ao sofrimento dos indivíduos e mais ao momento decisivo de afirmação de um destino comum. Criticamente, é importante notar: ambos funcionam como guardiões de limites — mas o poema de Pessoa olha para a travessia como rito de amadurecimento do povo. Assim, “O Monstrengo” atualiza o mito épico, tornando-o, por um lado, espelho da modernidade, por outro, hino alegórico à persistência identitária.
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Leituras ideológicas e políticas
Do ponto de vista ideológico, o poema pode ser lido como exaltação da soberania e da coragem nacionais — um nacionalismo mítico que legitima o direito de Portugal ao mar e aos seus mistérios. Esta leitura foi amplamente aproveitada por discursos políticos do Estado Novo, que inscreveram “A Mensagem” no seu panteão de textos patrióticos. Contudo, é fundamental distinguir entre o que Pessoa escreveu e as posteriores apropriações do seu texto. O poema, embora magnético, permanece ambíguo: dramatiza também o custo da empresa, a dúvida e o risco de aniquilamento.Nesse sentido, “O Monstrengo” oscila entre crítica e celebração, não resultando num simples canto de glória, mas sugerindo as contradições do próprio mito expansionista português. A indagação do monstrengo contém uma advertência: o desejo de expansão traz consigo a pergunta sobre legitimidade — quem é dono do mundo, que preço paga um povo ao cruzar o limiar do desconhecido?
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Leituras simbólico-psicológicas e filosóficas
Para além do nacionalismo, pode ler-se o monstruoso como projeção da sombria face inconsciente coletiva — o “medo de ser”, a necessidade de superar bloqueios primordiais para se tornar sujeito da própria história. O mar, nesse sentido, é abismo interior, e o monstrengo a prova de iniciação, ecoando a lógica do mito universal: toda grande travessia exige vencer guardiões simbólicos.Existencialmente, o poema convoca ideias de afirmação deliberada perante o insondável. A resposta do leme (“sou mais do que eu: / Sou um Povo…”) eleva-se a um plano filosófico, onde a identidade se realiza precisamente pelo confronto com a alteridade temível. Não se trata de eliminar o medo, mas de integrá-lo na forja de um destino coletivo.
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