Ricardo Reis: Análise do Heterónimo Clássico de Fernando Pessoa
Este trabalho foi verificado pelo nosso professor: 15.01.2026 às 17:34
Tipo de tarefa: Redação
Adicionado: 15.01.2026 às 16:53

Resumo:
Ricardo Reis, heterónimo de Pessoa, expressa classicismo, ordem e resignação em poesia racional e contida, marcada por helenismo e epicurismo.
Ricardo Reis: O Heterónimo Clássico de Fernando Pessoa
1. Introdução
Para compreender a vastidão e a riqueza da literatura portuguesa do século XX, é inevitável referir o nome de Fernando Pessoa. Figura central do modernismo nacional, Pessoa não foi apenas um poeta de obras próprias; soube reinventar-se em múltiplas identidades literárias, os seus célebres heterónimos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, entre outros menos desenvolvidos. Cada heterónimo apresenta uma personalidade, voz, visão do mundo e escrita radicalmente distintas entre si e do próprio Pessoa, representando grandes arquétipos do espírito poético.Ricardo Reis destaca-se entre estes pelo seu espírito clássico, racional e resignado, encarnando uma poesia de disciplina, rigor e profundo helenismo. Oriundo, na ficção, do Porto, com uma educação jesuíta e exilado no Brasil por convicções monárquicas, Reis é um exemplo extraordinário de ficção dentro da ficção, onde Fernando Pessoa levou o conceito de “criação de personagens” ao extremo. O presente ensaio pretende analisar, em detalhe, a personalidade literária e filosófica de Ricardo Reis, recorrendo à sua biografia ficcional, estilo, temas, contexto e um exemplo poético, com especial atenção ao papel do neoclassicismo, da resignação e da ordem nas suas composições.
2. Biografia Ficcional e Formação Cultural
Na arquitetura mental de Pessoa, Ricardo Reis nasce no Porto em finais do século XIX. A sua juventude é marcada por uma educação rigorosa num colégio de jesuítas, ambiente que molda não só uma conduta disciplinada como também um gosto especial pela cultura greco-latina. Por força das circunstâncias sociopolíticas, sobretudo após o advento da República e a deposição da monarquia, Reis manifesta fidelidade ao regime deposto e, não encontrando consonância com o novo espírito nacional, opta pelo exílio voluntário no Brasil a partir de 1919.Este detalhe biográfico, embora inventado, revela muito acerca da personalidade do heterónimo. Ao escolher a saída em vez da integração, Reis posiciona-se enquanto conservador, tradicionalista e nostálgico de uma ordem superior que o tempo moderno ameaça destruir. Trata-se, pois, de alguém que prefere o recolhimento e o distanciamento do tumulto, elementos que viriam a ser fundamentais no seu discurso poético.
Culturalmente, Reis é latinista por formação alheia, isto é, recebeu de terceiros, através da escola jesuíta, o apego aos clássicos latinos. Mas, movido por espírito autodidata, torna-se semi-helenista por opção própria, nutrindo veneração especial pelos deuses, mitos e valores gregos antigos. Aqui se revela uma dupla influência cultural: de um lado, o peso da tradição e da disciplina romana; do outro, o ideal de medida e harmonia grega.
3. Características Físicas e Personais de Ricardo Reis
Fernando Pessoa teve o cuidado de diferenciar os seus heterónimos até nos detalhes físicos. Ricardo Reis é visto como moreno, de estatura baixa e corpo robusto, contrastando com Alberto Caeiro, mais magro e de rosto lívido. Esta configuração física serve – para além da diferença imaginativa – para refletir a personalidade de Reis: alguém sólido, reservado, pouco dado a manifestações exuberantes. A figura física espelha o interior do poeta – contido, cerebral, firme nas convicções e pouco permeável às paixões desmesuradas.4. Estilo Literário e Linguagem
A marca maior da poesia de Ricardo Reis reside no seu classicismo rigoroso. A linguagem revela-se culta e sofisticada, com vocabulário erudito e harmonia formal. O poeta rejeita o espontaneísmo emotivo de Caeiro ou o excentrismo de Campos, preferindo um discurso pensado, racionalizado e ordenado. Essa opção, bem patente nos seus textos, transmite ao leitor uma contenção expressiva e uma meticulosa construção poética.A métrica é outro ponto-chave: deve-se ler Reis, quase sempre, em odes. A ode, como género lírico, nasce na Grécia, sendo tipicamente composta para cantar feitos nobres, regulando-se por vielas rítmicas e métricas, entoadas ao som da cítara ou flauta. Na pena de Reis, a ode é o veículo da ordem, do entusiasmo moderado e do exorcismo da angústia pela arte compostamente bela. Os poemas apresentam versos medidos e estruturas fixas, transmitindo a sensação de que tudo se inscreve numa lógica superior e impassível.
A sintaxe revela-se complexa, com uso frequente do hipérbato – inversão da ordem habitual das palavras – o que adiciona uma camada de artificialidade, típica da literatura clássica. Por exemplo: “Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui.” (embora do ortónimo, nota a mesma percepção de ordem e medida).
5. Temática e Conteúdos nas Poesias de Ricardo Reis
A poesia de Reis centra-se, invariavelmente, em três eixos temáticos: neoclassicismo, paganismo e resignação.Neoclassicismo e Paganismo: O poeta recorre à mitologia greco-romana para dar legitimidade e altura aos sentimentos humanos. Os deuses são personificações de princípios universais, a que se deve reverência. Em vez do Deus cristão, Reis dirige-se a Júpiter, Apolo, Diana, e outros, como símbolos da ordem do cosmo. Isto reflete-se, por exemplo, no verso: “Acima da verdade estão os deuses e só acima dos deuses está o nada.” Esta máxima resume a cosmovisão reesiana: um mundo hierárquico, impenetrável à razão humana, onde os deuses regem o destino e a felicidade dos homens.
Visão do destino e dos deuses: Para Reis, tudo está predestinado. O homem deve aceitar serenamente a sua condição e não se iludir com desejos desmedidos nem paixões. O poeta diz-nos que qualquer gesto ou ambição é fútil diante da fatalidade: “Sábio é quem se contenta com o espetáculo do mundo.” Uma postura estoica que ensina a resignar-se diante dos acontecimentos.
Filosofia resignada: Aqui surge o epicurismo modificado de Reis, apontando para a moderação, a busca do prazer tido em pequenas doses e a evitação do sofrimento. Não há lugar para o emocionalismo, nem para a paixão desenfreada – tudo deve ser racionalmente ponderado.
Medo do sofrimento e frieza emocional: O cálculo é o escudo contra a tragédia. Daí resulta uma poesia que, embora bela e polida, transmite muitas vezes a sensação de uma “gaiola dourada”. O isolamento e a distância erguem-se contra a espontaneidade e a vida intensa.
Consequência temática: inevitavelmente, emerge o vazio existencial. A contenção, o moralismo e a ausência de entusiasmo consomem o espaço do apaixonamento lírico. Em comparação com o misticismo natural de Caeiro ou a modernidade febril de Campos, Reis representa a ética da renúncia.
6. Publicação e Recepção das Obras de Ricardo Reis
A primeira aparição das odes de Ricardo Reis deve-se à revista “Athena” (1924), um importante veículo de divulgação das letras portuguesas modernistas. Estas publicações eram, à época, plataformas fundamentais para as vanguardas, impulsionando debate, experimentação e contacto entre autores, num movimento que ligava Lisboa a Coimbra, Porto e até Paris, modelando a cultura literária de então.Entre 1927 e 1930, Reis volta a publicar oito odes na “Presença”, revista conimbricense, um verdadeiro farol de renovação estética nas letras portuguesas. Só após a morte de Pessoa, em 1935, o corpus completo das suas odes foi reunido, permitindo uma análise mais profunda da amplitude do projeto pessoano.
Se, inicialmente, Reis foi lido sobretudo como uma extravagância do génio pessoano, as décadas seguintes trouxeram uma avaliação mais séria e aprofundada das subtilezas do seu pensamento, especialmente depois das edições críticas e ensaios publicados a partir dos anos 60, a par da crescente valorização do património literário português.
7. Análise do Poema “Os Jogadores de Xadrez”
Para ilustrar as ideias desenvolvidas, tomemos o famoso poema “Os Jogadores de Xadrez”, que se estrutura em três momentos fundamentais.1. Narrativo: Reis descreve um cenário na antiga Pérsia, em plena guerra, onde dois homens jogam xadrez, alheios ao tumulto e destruição à sua volta: “Duas figuras silenciosas, perante o tabuleiro, imóveis, indiferentes ao alarido das armas.” 2. Reflexivo: O poeta traça o contraste entre a barbárie exterior (cidades em chamas, crianças assassinadas, mulheres ultrajadas) e a serenidade dos jogadores, que se mantêm focados, absortos na lógica fria do jogo. 3. Conclusivo: Reis conclui que tal é o modo sábio de viver: manter-se sereno, calculista, indiferente ao sofrimento e ao caos. O xadrez surge como metáfora da vida dominada pela razão, onde tudo é analisado com distância e método.
A linguagem é deliberadamente pausada, com frases extensas, quase fúnebres, emprestando solenidade e afastamento ao discurso. A imagem do tabuleiro serve, assim, de plataforma para o elogio reesiano da moderação e da impassividade – “Neste mundo há quem veja e há quem sofra; sábio é quem joga bem o jogo e se não perde nos movimentos do coração.”
8. Filosofia de Vida de Ricardo Reis
Fundamental na obra de Reis é o epicurismo adaptado: um convite à contenção, à celebração racional dos pequenos prazeres, sem excessos. “Viver não é necessário; necessário é saber viver” – tal é o mote do heterónimo. Este olhar defende a distância como estratégia de sobrevivência num mundo caótico e imprevisível.Muitos críticos veem neste conformismo uma fraqueza: a incapacidade ou medo de viver verdadeiramente. Outros, porém, elogiam-no como uma forma inteligente de defesa e autocontrolo. Ricardo Reis evita a tragédia, mas também se priva da intensidade e espontaneidade da existência. Neste sentido, aproxima-se do ethos de Virgílio ou Horácio, poetas latinos cuja máxima era “carpe diem” com medida.
Em confronto com outros heterónimos, as diferenças acentuam-se: Caeiro é natureza pura, o sentir imediato, sem explicação; Álvaro de Campos exalta a cidade, a energia moderna, a exaltação dos sentimentos. Reis é o equilíbrio (às vezes glacial), a ordem, o jogo bem jogado.
9. Conclusão
Ricardo Reis emerge, na vastidão pessoana, como uma das personagens poéticas mais complexas e fascinantes. Poeta clássico, erudito e formalista, exalta a ordem, o destino e a serenidade stoica diante da adversidade. A sua poesia é marcada pela resignação, pelo moralismo e pela ausência de arroubos espontâneos, refletindo um profundo desencanto perante a incerteza do mundo.A importância de Ricardo Reis reside tanto na originalidade estilística, quanto na capacidade de Pessoa criar, através dele, um universo poético denso, que dialoga com a tradição greco-latina e com o dilema da modernidade. No século XX português, poucas figuras sintetizam tão bem o conflito entre a tradição e a renovação, entre o desejo de ordem e o fascínio pelo caos.
Por fim, à luz dos desafios atuais, a filosofia de Reis permanece atual: será preferível a frieza racional ou o risco da emoção? Devemos resignar-nos diante do mundo ou viver com intensidade, mesmo que isso nos custe sofrimento? A resposta fica, talvez, nas palavras do próprio: “Sábio é o que se contenta apenas com o espetáculo do mundo.”
10. Considerações Finais e Expansões
Comparações possíveis: Ricardo Reis versus Alberto Caeiro evidencia o grande abismo entre o instinto puro e o cálculo racional; já com Álvaro de Campos, destaca-se o contraste entre o entusiasmo moderno e o classicismo sóbrio.Exploração poética: Nos poemas de Reis abundam termos como “destino”, “deuses”, “medida”, “sereno”, assim como hipérbatos que causam frases como “Ao longe, a vida passa indiferente”.
Contexto político: A escolha do exílio no Brasil é também eco do Portugal pós-monárquico, onde o choque das convicções políticas leva a rejeição ou afastamento, evidenciando o drama identitário português no início do século XX.
Outros autores: Reis tem afinidades com António Ferreira ou Bocage (na sua vertente neoclássica), assim como dialoga com o espírito de Horácio, na máxima “aurea mediocritas” (a justa medida dourada).
Citação final: “Uns, vencida a batalha, vão-se embora; outros, derrotados, ficam. Nós, serenos, assistimos.”
Ao estudar Ricardo Reis, descobre-se, em última análise, que cada leitor é convocado a escolher o seu lugar no mundo: no tumulto dos sentimentos, na análise racional ou, talvez, num equilíbrio fugidio, entre ambos.
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